A Secretaria da Fazenda de São Paulo determinou o bloqueio de R$ 176 milhões vinculados ao grupo Genial Investimentos no âmbito de uma investigação que apura um suposto esquema bilionário de sonegação fiscal no setor de combustíveis. A medida integra uma ação cautelar que busca recuperar cerca de R$ 7,6 bilhões em débitos de ICMS atribuídos a empresas investigadas.
O foco da apuração está nas empresas Áster e Copape, controladas pelos empresários Mohamad Hussein Mourad e Roberto Augusto Leme, conhecidos como Primo e Beto Louco. Ambos são investigados na operação Carbono Oculto, que apura a atuação de uma organização suspeita de evasão fiscal e lavagem de dinheiro.
Segundo as investigações, o bloqueio envolve uma operação financeira estruturada com participação indireta da Genial Investimentos. O esquema teria começado com a aplicação de R$ 176 milhões em Certificados de Depósito Bancário (CDBs) por meio de um fundo administrado pela instituição.
Parte desses recursos foi utilizada como garantia para a concessão de um empréstimo via Cédula de Crédito Bancário a uma empresa chamada Berna. Essa empresa adquiriu cotas de um fundo imobiliário posteriormente rebatizado como Lucerna, levantando suspeitas de que o próprio grupo estaria financiando a aquisição de ativos com seus próprios recursos.
As investigações apontam que a empresa Berna possui cerca de 20 imóveis avaliados em mais de R$ 200 milhões, incluindo terrenos em áreas estratégicas da capital paulista, como Tremembé e Vila Guilherme, além de postos de combustíveis.
Documentos cartoriais indicam que esses bens foram dados como garantia à Genial, mesmo já estando vinculados aos CDBs bloqueados. Para os investigadores, essa sobreposição de garantias pode indicar uma tentativa de dificultar o rastreamento dos recursos e proteger o patrimônio.
No dia 28 de agosto de 2025, data da deflagração da operação Carbono Oculto, a Genial tentou desfazer as operações financeiras sob análise. A justificativa apresentada foi de que a decisão teria sido tomada previamente.
A Procuradoria, no entanto, considerou a ação uma possível “fraude à ordem de execução” e manteve o bloqueio. O recurso da instituição foi rejeitado, com decisão final emitida em 9 de janeiro.
Em nota, a Genial Investimentos afirmou que atua em conformidade com as normas do mercado financeiro, destacando padrões de governança, transparência e controles internos.
A instituição informou ainda que o processo envolve um fundo sob sua administração fiduciária e que sua atuação seguiu as regulamentações vigentes. O banco também ressaltou que não é alvo direto da investigação e que colabora com as autoridades.
Outro ponto que chama atenção é a existência de fundos considerados de difícil rastreamento, como o fundo Viena, que investe em outro fundo chamado Bariloche. Este, por sua vez, possui participação em uma empresa ligada à operação de aeronaves executivas.
As aeronaves são operadas por uma empresa citada nas investigações por possíveis conexões com os empresários envolvidos e suspeitas mais amplas. Autoridades também analisam depoimentos que levantam possíveis relações indiretas com figuras públicas, o que amplia o alcance da apuração.
A operação Carbono Oculto investiga um dos maiores esquemas de sonegação fiscal já identificados no setor de combustíveis no Brasil, com impacto direto na arrecadação de ICMS principal tributo estadual.
Casos como esse têm reflexos em todo o país, incluindo o Rio de Janeiro, onde o setor de combustíveis também é historicamente sensível a fraudes fiscais e operações estruturadas para evasão de impostos.
O caso segue em análise e pode avançar para novas fases, com possibilidade de atingir outros setores e agentes do mercado financeiro. As autoridades continuam rastreando o fluxo de recursos e avaliando a extensão das operações, em um processo que pode redefinir o controle sobre estruturas financeiras utilizadas em esquemas de sonegação.