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Bets levam empresas a enfrentar faltas, dívidas e pedidos de adiantamento

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Bets levam empresas a enfrentar faltas, dívidas e pedidos de adiantamento

O avanço das bets chegou aos locais de trabalho com relatos de faltas, endividamento, pedidos de adiantamento salarial e queda de atenção entre funcionários afetados pelo jogo compulsivo. Entidades empresariais e sindicais passaram a orientar empregadores sobre acolhimento e encaminhamento para tratamento, diante de casos que também envolvem depressão, ansiedade e crises familiares. Com informações de Folha de S.Paulo.

O dono de restaurante Maurício Nishimori contou que um funcionário deixou de comparecer ao trabalho por um dia inteiro após receber o salário durante três meses seguidos. Ao procurar a esposa do trabalhador, descobriu que ele gastava com apostas. “Disse que ele iria perder o emprego, a família e a moradia caso continuasse na mesma”, afirmou o empresário.

Nishimori disse que decidiu manter o empregado e recomendou que ele buscasse atendimento especializado. Fora dos períodos de compulsão, o funcionário não se atrasa e tem bom desempenho, segundo o dono do restaurante. “Ele é um bom funcionário, gente boníssima, e mão de obra hoje é ouro”, declarou.

A Associação Brasileira de Recursos Humanos relata que departamentos de recursos humanos têm recebido depoimentos de empregados com dívidas elevadas e conflitos familiares após perdas em apostas. Para a presidente da entidade, Leyla Nascimento, o endividamento e o jogo compulsivo afetam a saúde mental e podem reduzir a produtividade das empresas.

Afastamentos por ludopatia cresceram em 2025

O número de afastamentos ligados à perda de controle com jogos, chamada de ludopatia, subiu 59,8% em 2025, primeiro ano do mercado regulado de apostas. Os registros passaram de 425 em 2024 para 679 no ano seguinte, em meio a 4,5 milhões de afastamentos contabilizados pelo INSS no período.

A Organização Mundial da Saúde considera o transtorno do jogo quando a atividade passa a ter mais importância do que relações familiares, trabalho e outras áreas da vida. O médico do trabalho Marcos Mendanha alertou que a compulsão pode deixar o trabalhador mais desatento e provocar erros, prejuízos e até acidentes laborais.

Mendanha afirmou que a dependência de apostas, isoladamente, não costuma gerar incapacidade, mas 82% dos pacientes com algum nível de transtorno do jogo têm outro transtorno mental associado, conforme estudo da Associação Europeia de Psiquiatria. Dependência de álcool e outras drogas, depressão e ansiedade aparecem entre os quadros mais frequentes.

A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes recebeu relatos de pedidos constantes de adiantamento, depressão, crises de pânico, desatenção e saídas recorrentes para jogar. Gabriel Miranda, líder da entidade em São Paulo, afirmou que a acessibilidade amplia o problema: “O jogo está no bolso do funcionário”.

A entidade elaborou uma cartilha para orientar pequenos e médios empresários a acolher trabalhadores e evitar conflitos na Justiça do Trabalho. O Tribunal Superior do Trabalho avalia se deve equiparar a ludopatia à dependência química como critério para rever demissões por justa causa em situações envolvendo comportamento compulsivo.

Empresas como Ypê, Gerdau e Whirlpool criaram ações de conscientização, com oficinas educativas e programas de acolhimento. No segundo semestre de 2025, a Ypê realizou uma roda de conversa intitulada “Bets: Diversão ou Armadilha Financeira?”, com orientações sobre sinais de perda de controle, prevenção e busca de ajuda profissional.

O Ministério da Saúde lançou em março de 2026 um serviço de teleatendimento para pessoas com problemas relacionados a apostas, em parceria com o Hospital Sírio-Libanês. A inscrição ocorre pelo aplicativo Meu SUS Digital, e o programa oferece consultas por vídeo com psicólogos e terapeutas, com capacidade de até 600 atendimentos mensais.

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