Vídeos criados com inteligência artificial que simulam Jair Bolsonaro (PL) em campanha eleitoral se multiplicaram no TikTok e em outras redes, apesar de o ex-presidente estar em prisão domiciliar e proibido de usar plataformas digitais ou fazer manifestações políticas. As peças pedem votos, convocam usuários a compartilhar conteúdos e apresentam mensagens que Bolsonaro não pronunciou.
Em um dos vídeos, o avatar diz, aos prantos: “Gente, está difícil para nós” e pede que seguidores usem os recursos da plataforma para ajudá-lo a “ganhar esta eleição”. Outro mostra uma versão artificial do ex-presidente ao lado do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato do partido à Presidência, com um apelo por vitória no primeiro turno.
Também circula uma gravação em que o falso Bolsonaro anuncia ter recebido um “alvará de liberdade para minha candidatura” e solicita engajamento. A afirmação é falsa. Deepfakes manipulam ou fabricam imagens, áudios e vídeos para fazer alguém parecer dizer ou fazer algo que nunca ocorreu.
As montagens não servem apenas para promover Flávio. Há conteúdos em que o avatar ataca a candidatura do próprio filho, afirma que ele “não tem condição de ser presidente” e pede votos para Lula. A variedade de mensagens evidencia como a tecnologia permite produzir conteúdos contraditórios com a mesma imagem pública.
@portalipaonlineO Partido Liberal (PL) entrou na trend dos vídeos produzidos com inteligência artificial e publicou, nesta quarta-feira (16), uma montagem em que o ex-presidente Jair Bolsonaro aparece ao lado de uma versão infantil de si mesmo. Nas imagens, também é possível ver o senador Flávio Bolsonaro usando a faixa presidencial, em uma cena criada por inteligência artificial que repercutiu nas redes sociais. 🎥: Reprodução: @vilesantosdm 🖥️ ipaonline.com.br 📱 WhatsApp: 15 – 2102-0391♬ som original – portalipaonline
Vídeo exibido por Flávio Bolsonaro já é analisado pela Justiça Eleitoral
O próprio Flávio Bolsonaro usou uma simulação do pai na convenção do PL que oficializou sua candidatura. No vídeo, com menos de um minuto, o avatar avisa que se trata de uma reprodução feita por inteligência artificial e pede apoio ao “escolhido” de Bolsonaro. “Vem com fé, o Brasil tem futuro, e o futuro é Flávio Bolsonaro presidente”, diz a peça.
A Federação Brasil da Esperança, que reúne o PT do presidente Lula, apresentou representação contra o PL e Flávio por propaganda eleitoral antecipada e uso irregular de inteligência artificial. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, ficou responsável pela relatoria do caso.
A defesa de Flávio sustentou ao tribunal que a gravação não buscou enganar o público nem espalhar conteúdo falso. O advogado Alberto Rollo avalia que a identificação da ferramenta no início do vídeo e o fato de a exibição ter ocorrido antes do período oficial de propaganda afastariam uma ilegalidade eleitoral. Para ele, a convenção partidária também constitui um “ato interno”.
O professor de direito eleitoral Fernando Neisser, da FGV-SP, discorda e afirma que as regras sobre a forma de propaganda se aplicam também à pré-campanha. “É indiscutível que, quando você tem um material que é produzido para circular nas redes sociais, é irrelevante se o ambiente é interno ou externo. Segue sendo ilegal”, disse.
O ministro Alexandre de Moraes, do STF, deu 48 horas, na terça-feira (28), para a defesa de Bolsonaro explicar se ele autorizou o uso de sua voz e imagem no vídeo da convenção. Moraes apontou que uma eventual concordância com a divulgação de conteúdo político-eleitoral nas redes poderia representar transgressão às medidas impostas ao ex-presidente e levar à reversão da prisão domiciliar para o regime fechado.
Na quarta-feira (29), os advogados de Bolsonaro negaram autorização. A defesa afirmou que ele não teve contato com Flávio porque cumpre restrição de visitas: o senador está impedido de visitar o pai por 90 dias, medida determinada após ler nas redes sociais uma carta em que Bolsonaro pedia união da direita em torno de sua pré-candidatura.
A resolução 23.610 do TSE proíbe deepfakes na propaganda eleitoral, inclusive quando a pessoa retratada autoriza o uso de sua imagem. A divergência entre os especialistas está na aplicação dessa regra antes de 16 de agosto, data de início da propaganda geral. Neisser defende retirada dos conteúdos e multa; Rollo diz que uma eventual punição por abuso de poder exigiria gravidade e capacidade de influenciar o pleito.
O TSE mantém um canal para denúncias de desinformação eleitoral e firmou acordos com grandes plataformas para detectar e mitigar o uso enganoso de tecnologias digitais nas eleições de 2026. O tribunal informou que não comenta temas ou processos que estejam ou possam entrar sob análise da Justiça Eleitoral.