O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informou que a Embaixada dos Estados Unidos procurou a Corte para solicitar uma reunião com integrantes do governo Donald Trump, mas não informou qual seria o tema do encontro. A revelação ganhou peso depois que o governo Luiz Inácio Lula da Silva decidiu negar a entrada no Brasil de dois enviados da Casa Branca que pretendiam discutir o sistema eleitoral brasileiro.
Segundo nota divulgada pelo TSE, a reunião acabou não sendo marcada por causa do recesso do Judiciário. O tribunal afirmou que apenas foi comunicado sobre a intenção da visita, sem qualquer detalhamento da pauta.
Os emissários barrados foram Riley M. Barnes, secretário assistente do Departamento de Estado, e Samuel Samson, secretário assistente adjunto. Ambos vêm sendo associados à política externa da administração Trump voltada para pressionar governos estrangeiros e apoiar grupos alinhados à direita em disputas políticas e eleitorais. Suas atuações em diferentes países renderam críticas por representarem uma tentativa de influência direta dos Estados Unidos em processos políticos internos, especialmente sob o discurso de “integridade eleitoral” e “promoção da democracia”.
A tentativa de aproximação ocorreu em meio à escalada de pressões de Washington sobre o processo eleitoral brasileiro. Os pedidos de visto foram apresentados em 20 de julho. No dia seguinte, Flávio Bolsonaro (PL), então pré-candidato à Presidência, voltou a atacar a credibilidade das urnas eletrônicas durante um encontro com embaixadores em Brasília.
No evento, Flávio citou documentos da CIA sobre supostas fraudes na Venezuela e insinuou que urnas da empresa Smartmatic seriam utilizadas no Brasil. A informação foi imediatamente desmentida pelo TSE, que reiterou que a Smartmatic jamais forneceu urnas eletrônicas ou softwares para as eleições brasileiras.
Em nota, o tribunal também lembrou que o presidente da Corte, ministro Kássio Nunes Marques, já apresentou o funcionamento do sistema eletrônico de votação a 25 embaixadores em reunião realizada em 16 de junho. Um novo encontro está marcado para 17 de agosto, quando representantes dos Estados Unidos, da União Africana, da Liga Árabe e de outros países serão convidados para acompanhar uma nova apresentação sobre o sistema eleitoral brasileiro.
O TSE ressaltou ainda que missões internacionais de observação eleitoral já foram confirmadas para acompanhar as eleições de outubro. Entre elas estão representantes da Organização dos Estados Americanos (OEA), da União Europeia, do Parlasul, do Carter Center, da Uniore e da ROJAE-CPLP.
A negativa dos vistos dos dois enviados norte-americanos amplia o desgaste diplomático entre Brasília e Washington. Nas últimas semanas, o Itamaraty também revogou o visto de Darren Beattie, assessor ligado ao governo Trump.
Para o governo brasileiro, a tentativa de enviar representantes do Departamento de Estado para discutir o sistema eleitoral sem apresentar previamente a pauta reforçou a percepção de uma ingerência indevida em um tema que pertence exclusivamente às instituições nacionais. O episódio ocorre em um momento de tensão crescente, marcado por iniciativas da administração Trump que vêm sendo interpretadas como tentativas de influenciar o cenário político brasileiro.