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Sakamoto: Com bullying de 5ª série, Milei vira cabo eleitoral de Lula

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Sakamoto: Com bullying de 5ª série, Milei vira cabo eleitoral de Lula

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Javier Milei não entendeu uma regra básica e não escrita do comportamento nacional: o brasileiro pode detonar o próprio país à vontade, mas não tolera estrangeiro fazendo isso com prepotência. Xingar o governo é direito nosso, de mais ninguém. Com autoestima que beira o delírio, o argentino ignora que ataques toscos disparados da Casa Rosada não caem bem nem entre o eleitorado independente crítico do petismo.

Em vez de ajudar a extrema direita brasileira, ele faz o oposto. Chamou Lula de presidiário e ladrão e foi fundo: compartilhou postagem de um parlamentar da Flórida, linha auxiliar de Marco Rubio, chamando o presidente de “porco”. Antes disso, esse mesmo deputado já tinha soltado uma imagem de IA mostrando Lula sequestrado pelos EUA de Trump. Nesse ritmo, seria mais prático doar direto para a campanha do PT.

Com essa metralhadora de recalque de celibatário involuntário, Milei fortalece Lula e sabota o próprio aliado, Flávio Bolsonaro.

E o timing não podia ser pior. Milei parece não notar o ressentimento que sobrou de uma Copa em que a seleção argentina virou vilã aos olhos de meio mundo, não por conspiração orquestrada por Lula com chips chineses, bilionários comunistas, cavaleiros templários e, claro, Leonardo DiCaprio, como sugerem as teorias da extrema direita, mas pelos próprios tropeços dos hermanos e pelo racismo de meia dúzia de torcedores que suja a festa do futebol.

Atacar o chefe de Estado brasileiro nesse cenário só aciona o reflexo nacionalista do eleitor médio independente, empurrando-o para o colo de Lula — que não cansa de agradecer à família Bolsonaro por ter entregado de bandeja o discurso da soberania, ao conspirar com os EUA contra empregos e empresas brasileiras via tarifaço.

Há método nessa 5ª série. Ao interferir tão grosseiramente na política brasileira, Milei joga uma cortina de fumaça oportuna sobre os próprios problemas em casa. Falar mal do Brasil distrai da conta que o brutal ajuste fiscal está cobrando da classe trabalhadora argentina. Enquanto a base sofre para fechar o mês sob a motosserra do argentino, ele posta memes e insultos internacionais. Sim, Lula não é o único alvo.

De quebra, o teatro cumpre duas funções extras: rende pontos na já declarada vassalagem a Trump e anima a claque bolsonarista (que, convenhamos, já vive em transe permanente e não precisa de muito estímulo). E arranca aplausos de um setor bem específico do mercado financeiro tupiniquim, onde alguns gestores de fundos na Faria Lima parecem guardar um pôster do argentino escondido na porta do armário.

A birra internacional de Milei não resolve sua sonhada reeleição, mas pode render a Lula alguns poucos votos valiosos. Pesquisa Genial/Quaest mostra que, entre os que não votaram, brancaram ou anularam no 2º turno de 2022, 35% dizem que o apoio de Milei aumenta a chance de votarem em outro candidato que não Lula nem Flávio; 22% afirmam que o endosso os empurra para Lula; e apenas 15% dizem que os aproxima do 01. É pouco, mas em uma eleição ultrapolarizada, ajuda.

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