O ex-comandante da Força Aérea Brasileira (FAB) Carlos Baptista Junior revelou que Jair Bolsonaro o pressionou em uma reunião no Palácio da Alvorada, em novembro de 2022. “BJ, eu já te dei dois cartões amarelos”, disse o então presidente na ocasião.
O episódio integra o livro “Eu Disse Não”, que reúne detalhes das discussões sobre tentativas de reverter o resultado eleitoral. Baptista Junior afirma que entendeu a frase como uma cobrança por sua postura nas conversas sobre uma ruptura institucional.
“Pelo contexto em que foi pronunciada, interpretei como uma tentativa clara de pressão sobre minha postura nas discussões que vinham ocorrendo”, escreve o brigadeiro.
Os “cartões amarelos” faziam referência, segundo o ex-chefe da FAB, a duas entrevistas nas quais ele afirmou que o presidente eleito tomaria posse sem oposição das Forças Armadas. Ele diz que já havia recebido recados indiretos sobre a contrariedade de Bolsonaro com suas declarações públicas.
No relato, Baptista Junior diz que combinou com o então comandante do Exército, Marco Antônio Freire Gomes, uma estratégia para ganhar tempo diante das propostas apresentadas por Bolsonaro e seus aliados. Os dois aceitavam participar de reuniões longas e ouvir as teses para adiar qualquer movimento até 1º de janeiro de 2023.
Estratégia para adiar propostas de ruptura
O ex-comandante compara a conduta dos chefes militares ao conceito de “defesa elástica”, usado para trocar espaço por tempo. Na explicação de Baptista Junior, a espera reduziria a intensidade das emoções e exporia a inviabilidade das ideias discutidas no Alvorada.
O livro também descreve divergências entre os militares que resistiam às propostas e o então comandante da Marinha, Almir Garnier Santos. Baptista Junior afirma que Garnier tentava atrair o Exército para uma ruptura institucional, com o argumento de que as Forças Armadas não precisariam agir por unanimidade, mas por maioria.
Em um dos encontros, Baptista Junior relata ter se irritado com Garnier por considerar sua posição uma “deslealdade à FAB”. Segundo o brigadeiro, o almirante disse que precisava do Exército porque não conseguiria sustentar uma ruptura apenas com cerca de 14 mil fuzileiros navais e classificou a Aeronáutica como dispensável por “não ter tropas”.
Baptista Junior e Freire Gomes se tornaram testemunhas centrais contra Bolsonaro nas investigações do Supremo Tribunal Federal (STF) e da Polícia Federal. Ambos relataram reuniões em que autoridades e aliados do então presidente discutiram formas de impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva. “Eu Disse Não”, de Carlos Baptista Junior, terá lançamento previsto para setembro pela Autêntica Editora.