O MBL e o partido Missão, liderado por integrantes do movimento, promovem uma estrutura para estimular a produção de vídeos curtos de políticos nas redes sociais com promessa de ganhos por monetização. A prática, divulgada pelo candidato à Presidência Renan Santos e pelo deputado federal Kim Kataguiri, pode levar a questionamentos na Justiça Eleitoral por envolver vantagem econômica ligada à propaganda, segundo o Intercept Brasil.
Os dois divulgam o curso online “Máquina de Cortes”, comercializado pela plataforma Valete Plus, ligada ao MBL. O treinamento promete ensinar usuários a “criar cortes virais e transformar vídeos em renda” para TikTok, Reels do Instagram e YouTube Shorts, formatos que remuneram perfis com grande volume de visualizações.
Na apresentação do curso, Renan Santos afirma que o grupo decidiu montar “a nossa própria máquina, a nossa própria engenharia”. A página anunciava ganhos mensais entre R$ 1.050 e R$ 4.850; ela saiu do ar após pedido de posicionamento, mas os módulos do treinamento continuavam disponíveis na área fechada da plataforma Valete.
Kim Kataguiri também associou a divulgação das ideias do grupo à renda dos produtores. Em vídeo que circula desde fevereiro de 2025, ele pergunta: “Quer ganhar R$ 2 [mil], R$ 3 mil por mês divulgando as nossas ideias, militando em prol daquilo que você acredita ao mesmo tempo em que você consegue fazer uma renda extra?”.
Resolução do TSE veda monetização por conteúdo eleitoral
A Resolução nº 23.610/2019 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proíbe remuneração, monetização ou qualquer vantagem econômica como retribuição pela publicação de conteúdo eleitoral, inclusive quando o pagamento vem de terceiros. A regra pode alcançar modelos que organizem e incentivem uma rede de criadores em busca de receita com material de campanha.
A advogada eleitoral Carla Maria Nicolini, da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político, afirma que o ponto central não é a origem direta do depósito. “O fator decisivo não é quem literalmente deposita o dinheiro, mas se existe estímulo e organização por trás”, disse. Para ela, a comissão paga por plataformas pode entrar na vedação quando há esse tipo de incentivo.
Juliana Noda, também advogada eleitoral e integrante da entidade, avalia que recrutamento, direcionamento, competição e estímulo financeiro elevam a possibilidade de a Justiça Eleitoral considerar que a mobilização deixou de ser espontânea. Ela diferencia esse cenário de uma orientação genérica para apoiadores produzirem cortes por conta própria.
O precedente mais próximo envolve Pablo Marçal, que organizou campeonatos de cortes em sua campanha à Prefeitura de São Paulo em 2024. O TRE-SP declarou o empresário inelegível ao entender que a promessa de recompensas criou uma rede artificial de postagens, com uso indevido dos meios de comunicação.
No acórdão, o tribunal afirmou que “a utilização da técnica de monetização para criar uma falsa rede de postagens orgânicas, fomentada pela promessa de recompensa, configura o uso de ferramenta digital para alterar a repercussão da propaganda eleitoral”. Marçal recebeu ainda multa de R$ 420 mil; a condenação em segunda instância foi decidida por 4 votos a 3 e ainda admite recurso ao TSE.
O modelo do Missão difere do usado por Marçal porque não prevê prêmios pagos diretamente aos criadores. Ainda assim, especialistas apontam que a eventual organização de desafios, rankings, hashtags, monitoramento de resultados e orientação para monetizar os vídeos pode ser examinada pela Justiça Eleitoral.
O curso “Máquina de Cortes”, vendido por R$ 169,68, reúne 38 aulas de roteiro, edição e distribuição de conteúdo. Kataguiri atua como professor e chama os produtores de “pilares, tijolos e alicerces fundamentais” para ampliar os porta-vozes do movimento.
O assessor parlamentar Dennys Sobrinho, que administra o canal de Kataguiri no YouTube, também leciona no curso. Em uma aula, ele diz que ensinará os participantes a melhorar a monetização e a fazer “aquela bufunfa, o negocinho cair grosso na sua conta”, enquanto relaciona a estratégia à distribuição das ideias do MBL.
O Missão mantém servidores no Discord para organizar os chamados corteiros. Em um deles, a “Fábrica de Cortes da Missão”, usuários recebem links de vídeos brutos, memes, trilhas e instruções para publicar material em perfis próprios e marcar as contas oficiais dos políticos promovidos.
O site do partido também monitora o desempenho das publicações conectadas pelos criadores. A cada 200 visualizações, o usuário recebe “XP da Missão”, pontos que alimentam um ranking público de canais, enquanto áreas do servidor reúnem conteúdos de Renan Santos, Kim Kataguiri, Arthur do Val, Guto Zacarias e Amanda Vettorazzo.