Uma professora de psicologia e estatística de Los Angeles afirma estar vivendo, junto com o marido e o filho adolescente, um “pesadelo interminável” após os três serem detidos pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE). O relato foi publicado pela revista The Nation em 11 de agosto de 2026.
Maryam Tahmasebi, professora do Los Angeles Pierce College, conta que sua vida mudou completamente em 9 de abril, quando recebeu uma mensagem do filho informando que o pai não havia ido buscá-lo na escola e não atendia ao telefone.
Sem saber o que havia acontecido, Maryam buscou o filho, voltou para casa e chamou a polícia. Segundo ela, jamais imaginou que o marido, Eissa Hashemi, pudesse ter sido detido pelo ICE. Os dois são residentes permanentes legais dos Estados Unidos e possuem green cards válidos.
Eissa também é professor e trabalha como mentor de estudantes de doutorado no departamento de Business Psychology da The Chicago School. Maryam afirma que os dois não possuem antecedentes criminais — nem sequer multas de trânsito.
Ela acreditava que, caso houvesse algum problema com a situação migratória da família, o governo seguiria os procedimentos legais e os notificaria oficialmente.
Detido por causa da mãe
A situação, segundo Maryam, tomou um rumo ainda mais dramático quando ela descobriu que o marido estava em uma unidade do ICE no centro de Los Angeles.
Ela afirma que o governo decidiu agir contra Eissa por causa de sua mãe, que havia trabalhado como tradutora para os sequestradores durante a crise dos reféns americanos no Irã, em 1979 — um episódio ocorrido antes mesmo de Eissa nascer.
“Vim para cá porque queria construir uma vida para mim e para minha família definida pelas minhas próprias ações, não pelas ações de outra pessoa”, escreve a professora em seu relato.
Para Maryam, o caso representa uma espécie de punição baseada em linhagem familiar. Ela afirma que construiu sua vida acadêmica nos Estados Unidos e esperava ser julgada por seus próprios atos, não por acontecimentos envolvendo familiares décadas antes.
Maryam Tahmasebi, her husband, and her son were permanent US residents with no criminal record. But they’ve been locked in the “unendurable nightmare” of ICE detention for over four months. Here, Maryam tells their story.https://t.co/EzHAbHJIwk
— The Nation (@thenation) August 11, 2026
Mãe e filho também foram presos
O que aconteceu depois tornou o episódio ainda mais grave.
Segundo Maryam, no dia seguinte à detenção do marido, ela levou o filho à escola. Durante o trajeto, seu carro teria sido cercado por veículos do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS).
Ela e o adolescente foram detidos.
A professora diz ter sido obrigada a assistir ao filho, que cursa o ensino médio e vive legalmente na Califórnia há 12 anos, ser algemado.
Mãe e filho foram então transferidos durante a noite de Los Angeles para o Texas. Desde então, permanecem no estado.
Maryam relata que ela e o filho passaram mais de 120 dias no Dilley Immigration Processing Center, enquanto Eissa foi levado para o South Texas Detention Center, em Pearsall.
A família está separada desde então.
“A separação familiar é a política”
Maryam conta que tentou conseguir a transferência do marido para Dilley, apresentado pelas autoridades como um centro de detenção familiar.
A resposta, segundo ela, foi que, naquele caso específico, a separação da família era justamente a política adotada.
“Como isso pode acontecer com pessoas que nunca infringiram a lei, em um sistema que eu acreditava ser baseado no Estado de Direito?”, questiona.
Ela afirma que os quatro meses de detenção provocaram uma deterioração física e psicológica que pode deixar consequências por anos.
O contato com o marido, segundo o relato, é extremamente limitado: apenas dez minutos a cada duas semanas, sob supervisão.
O filho, que fala apenas inglês e frequenta o sistema escolar da Califórnia desde a pré-escola, estaria tendo dificuldades para compreender por que o único país que considera sua casa está tratando sua família dessa maneira.
Família pediu para deixar os EUA
Em determinado momento, Maryam afirma que a família tomou uma decisão ainda mais difícil: pediu autorização para deixar voluntariamente os Estados Unidos.
Mesmo assim, segundo ela, o governo se opôs à saída e chegou a indicar que recorreria de decisões judiciais que autorizassem a família a deixar o país.
Na prática, afirma a professora, isso significaria a continuidade da detenção por tempo indeterminado.
“Mas com que finalidade?”, pergunta.
Maryam diz não conseguir encontrar uma justificativa para o que considera um processo essencialmente punitivo.
Ela ressalta que a família não tem dinheiro ou influência política para conseguir proteção ou tratamento privilegiado. São, segundo seu próprio relato, dois educadores de classe trabalhadora que viviam em um apartamento alugado e jamais imaginaram enfrentar uma situação desse tipo.
“Nenhuma criança merece isso”
No fim do relato publicado pela The Nation, Maryam faz um apelo por ajuda para que a família consiga sair da situação em que se encontra.
“Quero que meu filho tenha uma vida normal”, escreve. Segundo ela, o adolescente não deveria passar os dias dentro de um centro de detenção.
A professora encerra sua mensagem com um alerta: se uma família formada por dois professores e um adolescente, sem antecedentes criminais e com residência legal nos Estados Unidos, pode passar por esse tipo de situação, outras famílias também podem estar vulneráveis.
“Se isso pode acontecer conosco, uma família cumpridora da lei formada por dois professores e um menino, pode acontecer com qualquer pessoa.”