Tenta-se afixar no imaginário popular a ideia de que a esquerda não se ocupa, em seus movimentos políticos, de questões práticas de segurança pública. Tal preocupação seria intrínseca à direita, que não aceita ver a população ser vitimada por bandidos protegidos “pela turma dos direitos humanos”. A óbvia falácia esconde que a noção de segurança característica da direita é distribuir armas às “pessoas de bem” e encarcerar mais gente por mais tempo, pobres e pretos preferencialmente.
Dia desses, o mantra da “esquerda que não liga para segurança” era repisado naquele programa comandado por Andréa Sadi nas tardes da Globo News, um que se propõe informal e quase sempre é entediante. Merval Pereira balbuciava obviedades tentando parecer ponderado, Octávio Guedes fazia gracinhas, todos concordavam que “o discurso da segurança pública foi capturado pela direita”. Ninguém alertou para o tipo de segurança pública que a direita prega e pratica nos estados que governa. Ninguém lembrou, também, que a PEC da Segurança elaborada pelo governo Lula dormita no Senado Federal. Mencionar o amplo plano para a área preparado pelo candidato ao Governo de São Paulo Fernando Haddad, nem pensar.
Mais útil que criticar a esquerda por tratar a segurança pública como uma questão, antes de tudo, socioeconômica, seria denunciar o modelo “faroeste” da segurança pública apregoado pela direita. Nada do que os direitistas defendem apresentou resultado positivo em termos de redução da violência e da criminalidade, em nenhum lugar do mundo, como provam numerosos estudos.
A explosão do arsenal nas mãos de civis resultante dos estímulos ao armamento perpetrados pelo Governo Bolsonaro, retrato do modelo de segurança pública defendido pelos “cidadãos de bem”, já seria suficiente para a mídia desviar suas críticas para a direita. O total de licenças concedidas a caçadores, atiradores esportivos e colecionadores (CACs) cresceu substancialmente. Até o final daquela gestão, o contingente armado de civis superou o efetivo total de policiais militares de todo o Brasil.
Além disso, armas compradas legalmente por cidadãos comuns tornaram-se s diretas de abastecimento de facções criminosas e milícias, por meio de roubos, furtos ou fraudes de “laranjas” com registro de CAC válido. Houve expressiva mudança no perfil das armas apreendidas pelas polícias brasileiras, registrando-se uma forte substituição de revólveres antigos por pistolas semiautomáticas e fuzis.
A maior presença de armas de fogo nos lares elevou os riscos de mortes decorrentes de brigas domésticas, agressões de trânsito e discussões de vizinhança, reduzindo a chance de sobrevivência das vítimas nesses conflitos cotidianos. A guarda domiciliar frouxa e o volume de armas em residências impulsionaram os casos de disparos acidentais com crianças e de suicídios motivados pelo acesso imediato ao gatilho.
Promover a segurança pública, na opinião da direita brasileira, é agir como as polícias do governador afastado do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, que se orgulha de chacinas, ou do governador de São Paulo,Tarcísio de Freitas, fiador de inúmeras operações “mata-pobre” e “mata-preto”. No governo do “bolsonarista-gestor”, o número de mortes por policiais em território paulista saltou de 355 para 672 por ano.
Em junho de 2025, o governo paulista alterou o funcionamento das câmeras nas fardas. O modelo de gravação ininterrupta foi substituído por equipamentos que necessitam de acionamento manual do agente ou disparo remoto do centro de operações. Organizações de direitos humanos indicam que a piora nos números durante o segundo semestre de 2025 coincidiu diretamente com o afrouxamento desse controle digital. Bidu.
Os mesmos que aplaudem a polícia de Tarcísio e as medidas-faroeste de Bolsonaro são a favor do encarceramento em massa, quesito desumano em que o Brasil é campeão. O World Prison Brief – base de dados internacional especializada em sistemas prisionais, considerada uma das principais referências mundiais sobre encarceramento – registra que o Brasil possui cerca de 900 mil pessoas privadas de liberdade no sistema prisional e capacidade oficial para apenas 490 mil vagas, o que significa ocupação de cerca de 135 % da capacidade projetada.
Já a plataforma Geopresídios, do Conselho Nacional de Justiça, informa, com base em inspeções de 1.836 unidades prisionais, uma taxa média de ocupação de 150,3 %, ou seja, as prisões amontoam cerca de 1,5 vez mais pessoas do que a capacidade oficial das unidades inspecionadas. Os presos vivem espremidos, como sugeriu tranquilamente Jair Bolsonaro, certa vez: “A cadeia, se você tiver recursos, amplia. Ninguém quer torturar ninguém dentro da cadeia. Mas se não tiver recursos, amontoa”.
Ainda assim, quem recebe as críticas da mídia por seu comportamento quanto à segurança pública é a esquerda. Essa imprensa recusa-se a entender que seu papel deve ser o de esclarecer a população sobre as causas e as possíveis soluções para a insegurança pública brasileira, não dar destaque diuturno a uma “captura” de narrativa, priorizando o enfoque eleitoral sobre um problema real.