A ONG Instituto Conhecer Brasil, investigada pelo Ministério Público de São Paulo e pela Polícia Civil, apresentou ao menos R$ 16,5 milhões em notas irregulares à gestão Ricardo Nunes (MDB) para justificar despesas de um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo. O acordo prevê a instalação de pontos de wi-fi gratuitos em regiões periféricas da capital.
A entidade é presidida pela jornalista e empresária Karina Ferreira da Gama, também dona da Go Up Entertainment, produtora responsável por “Dark Horse”, filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Levantamento feito pelo g1 nas prestações de contas da ONG aponta notas canceladas no sistema da própria prefeitura e recibos sem valor fiscal usados para comprovar gastos milionários.
Em 2024, por exemplo, o instituto contratou a Make One Tecnologia Digital Ltda. para locação de equipamentos eletrônicos e apresentou quatro faturas para justificar despesas de R$ 8,5 milhões. Faturas, no entanto, não têm valor fiscal, pois não foram registradas no sistema de nota fiscal eletrônica da prefeitura para recolhimento de impostos.
Outro caso envolve a Complexsys Soluções Integradas Ltda., contratada pela ONG para prestação de serviços. Em novembro de 2025, a empresa emitiu uma nota fiscal de R$ 2 milhões por supostos serviços de verificação e reparo técnico de equipamentos. A consulta aos registros municipais mostrou que o documento foi cancelado no mesmo dia em que foi emitido, mas acabou incluído na prestação de contas entregue à prefeitura em fevereiro deste ano.
A Complexsys, do empresário André Feldman, afirmou que “acompanha com serenidade a investigação atualmente conduzida pelas autoridades competentes e que é mera prestadora de serviços da OSC Instituto Conhecer Brasil”.
A empresa também declarou: “Importa registrar que inexistem, até o presente momento, conclusões definitivas aptas a justificar qualquer juízo de responsabilidade em desfavor da empresa a que prestamos serviços técnicos, razão pela qual se impõe a observância dos postulados constitucionais do devido processo legal, da ampla defesa, do contraditório e da presunção de inocência. A empresa permanece à disposição das autoridades para os esclarecimentos necessários”.
O levantamento também identificou notas emitidas pelo próprio instituto para ele mesmo, como se a entidade tivesse prestado serviço a si própria. Ao menos três notas nessa condição somam mais de R$ 1,4 milhão. Parecer da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia apontou: “Notas fiscais consideradas indevidas; pois a instituição não pode emitir nota para si própria”.
O mesmo parecer afirma que a ONG não restituiu integralmente valores glosados e registrou ao menos R$ 925 mil em pagamentos em duplicidade.
Mesmo assim, a gestão municipal aprovou a prestação de contas com ressalvas, condicionada à devolução de R$ 930.256,87. A Prefeitura disse que o valor foi devolvido e que o contrato foi renovado para a instalação dos 1.800 pontos restantes. Até agora, 3.200 foram instalados.
Karina também prestou consultoria à campanha de Mário Frias (PL-SP) em 2022, por meio da GO7 Assessoria, Produção e Marketing Cultural Ltda., que recebeu R$ 54 mil. Frias destinou cerca de R$ 2 milhões em emendas ao Instituto Conhecer Brasil, operação investigada no STF sob suspeita de falta de transparência. texto enviado pelo usuário.