Por Leonardo Sakamoto no Uol
A privatização dos serviços públicos paulistas está entregando uma experiência completa à população: trem pegando fogo, obra de água explodindo e bairros inteiros no escuro. Só falta o governo de São Paulo criar um prêmio para quem gabaritar esse bingo da vida real.
As linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade tiveram a circulação interrompida na manhã de hoje por uma falha elétrica na região do Brás. A Trivia Trens, que havia assumido a concessão há três dias, apontou que um possível curto-circuito provocou um incêndio em uma composição da linha 12, levando ao desligamento automático das subestações.
Imagens de passageiros diante de fogo e faíscas circulam nas redes sociais. Três pessoas passaram por atendimento médico, mas muitos enfrentaram momentos de desespero dentro do vagão. E, com os trens parados, outros tantos tiveram que descer e caminhar pelos trilhos até as estações. Imagens aéreas mostraram policiais militares auxiliando pessoas que deveriam estar sob os cuidados da nova concessionária. Cenas de guerra.
Vídeo mostra incêndio dentro do trem da Trivia Trens que paralisou linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade. #triviatrens #linha11coral #linha12safira #linha13jade
Salve Ferraz pic.twitter.com/Up4IlPsl4q— MetrôCPTM (@metroecptm) July 23, 2026
Três dias não são suficientes para provar que a concessão fracassou. Mas são mais do que suficientes para desmontar a fantasia de que basta trocar o logotipo na estação para que a eficiência privada desça dos céus, cercada por anjos neoliberais.
O paulistano já sofre bastante com as falhas e interrupções constantes das privatizadas linhas 9-Esmeralda e 8-Diamante, que pertencem à Via Mobilidade, da Motiva (ex-CCR). Aliás, diante de uma paralisação dos trabalhadores do metrô e da CPTM, o governador Tarcísio de Freitas afirmou que as linhas que haviam sido transferidas à iniciativa privada “não estão deixando o cidadão na mão” em coletiva à imprensa. Pouco depois, a linha 9 deu chabu. O serviço público voltou a funcionar, mas o privado, não.
A privatização é vendida como uma espécie de exorcismo: a empresa pública vai embora e, com ela, desapareceriam atrasos, falhas e desperdícios. Quando o serviço privado entra em colapso, porém, a explicação muda. De repente, a culpa é da chuva, do vento, do calor, da árvore, da ferrugem, do azar, de sabotagem, de Mercúrio retrógrado, do goleiro Vozinha. Menos da concessão e seu modelo.
São Paulo já conhece esse roteiro. A Eletropaulo foi privatizada em 1998 com a promessa de um serviço mais moderno e eficiente. Décadas depois, sob o comando da Enel, eventos climáticos deixam milhões de pessoas sem energia por dias. Não porque a empresa controle o vento, mas porque manutenção preventiva, equipes experientes e redes mais resistentes custam dinheiro. E dinheiro gasto com prevenção não vira dividendo.
O Sindicato dos Eletricitários aponta que a companhia reduziu empregados diretos, perdeu memória técnica e ampliou a terceirização. Trabalhadores mais antigos custam mais, mas também conhecem a rede e sabem onde ela costuma falhar. A população percebe a diferença quando a geladeira descongela, o comércio fecha e equipamentos médicos param de funcionar.
O mesmo alerta foi feito antes da privatização da Sabesp. Tarcísio garantiu que aquilo que aconteceu com a Enel não se repetiria na empresa de água e esgoto. Daí, em maio, uma equipe que trabalhava para a Sabesp no Jaguaré atingiu uma tubulação de gás. A explosão matou duas pessoas, deixou outras feridas e destruiu imóveis. Segundo o Sintaema, sindicato da categoria, cerca de 40% dos empregados diretos teriam deixado a empresa após a privatização, principalmente por meio de programas de demissão voluntária, com reposição por terceirizados ou funcionários sem a mesma experiência.
O sindicato relaciona essa perda de conhecimento acumulado ao aumento dos riscos. Não se trata de afirmar que todo acidente resulta automaticamente da privatização, mas de reconhecer uma verdade elementar: administrar água, esgoto, energia e transporte exige mais do que braços disponíveis. Exige gente treinada, experiência, manutenção, planejamento e conhecimento detalhado de sistemas construídos ao longo de décadas.
A explosão no Jaguaré não foi o único aviso. Em março, o rompimento de um reservatório em construção da Sabesp provocou destruição em Mairiporã e matou um trabalhador terceirizado. Meses antes, uma tubulação sob responsabilidade da companhia caiu sobre uma casa em Mauá, matando uma moradora. Em junho, polícia e bombeiros isolaram a rua Dr. Teodoro Baima, no centro de São Paulo, para a Comgás consertar um vazamento que havia começado em uma obra da Sabesp.
Para os usuários, não importa se uma falha em trens ocorreu por falta de manutenção e de investimento, sobrecarga, vandalismo, sabotagem ou pelo ET Bilú ter descido aos trilhos em busca de conhecimento. Ela quer que a concessionária esteja preparada para resolver problemas rapidamente.
Olha que imagem absurda do trem pegando fogo em São Paulo. Imagina estar tentando ir pro trabalho e passar por esse desespero. E ainda ter que engolir o trauma e seguir para o trabalho mesmo assim. Não tá fácil pro povo. pic.twitter.com/4zHwiGsj5J
— Rick Azevedo (@rickazzevedo) July 23, 2026
Nada contra empresas ganharem dinheiro. O problema é quando a população fica com o fogo, a explosão e o apagão enquanto os investidores ficam com os dividendos.
Privatização não pode ser profissão de fé. Se uma concessão não oferece um serviço comprovadamente melhor, mais seguro e mais barato, por que realizá-la? Para trocar o monopólio público por um monopólio privado, no qual a sociedade continua bancando investimentos, socorros e prejuízos, mas perde poder sobre as decisões?
Todos os serviços públicos devem ser privatizados só por ideologia? Na Europa, cidades reestatizam serviços de água e luz por perceber que a qualidade caiu sob a gestão privada. Muitas vezes, a busca por qualidade de vida não é para dar lucro.
Isso sem contar que auando tudo funciona, o mérito é da eficiência empresarial. Quando dá errado, aparecem o Estado, a polícia, os ônibus emergenciais da operação Paese e o dinheiro público para recolher os cacos. O lucro é privado, o caos continua socializado.
A fumaça nos trens recém-concedidos, a explosão em uma obra da Sabesp e os apagões sob a Enel não são provas isoladas de uma conspiração do mercado. São sinais de que entregar serviços essenciais sem fiscalização forte, metas rigorosas, trabalhadores experientes e punições capazes de doer no bolso das empresas é brincar com fogo.
E, em São Paulo, o fogo já chegou aos vagões.