A Polícia Federal acionou a Interpol para tentar localizar bens e ativos do empresário Daniel Vorcaro na América do Norte e na Europa, em uma nova etapa da investigação sobre suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e outros crimes envolvendo o Banco Master.
Investigadores familiarizados com o caso afirmam que a solicitação ocorreu por meio da ferramenta conhecida como Silver Notice, ou Alerta Prata, mecanismo recente da Interpol voltado ao rastreamento internacional de patrimônio ligado a investigados ou condenados por crimes financeiros.
PF mira imóveis, contas e empresas ligadas a Vorcaro
O pedido busca informações sobre imóveis, empresas, contas bancárias, embarcações, aeronaves e outros ativos registrados em nome de Vorcaro ou vinculados a ele por meio de empresas. A PF avalia que esses dados podem embasar futuras medidas de bloqueio, confisco e repatriação, caso a Justiça reconheça origem ilícita nos bens.
A suspeita dos investigadores é que parte do patrimônio do empresário tenha sido pulverizada em propriedades e fundos de investimento em diferentes países, inclusive paraísos fiscais. A PF teme que Vorcaro tente blindar esses ativos com vendas ou transferências para terceiros.
O colapso do grupo comandado por Vorcaro, que reunia ao menos três instituições financeiras, deixou um rombo de R$ 52 bilhões junto ao Fundo Garantidor de . Até agora, os países acionados pela Interpol não comunicaram quais bens ou ativos identificaram.
O paradeiro do patrimônio do empresário virou uma prioridade da PF desde o avanço da Operação Compliance Zero, deflagrada em novembro de 2025. Vorcaro assumiu o controle do Banco Master em 2019 e ficou conhecido por ostentar festas milionárias, mansões em Brasília e apartamentos de alto padrão em São Paulo.
Festas milionárias e patrimônio declarado entraram no radar
Documentos apontam que Vorcaro realizou, em 2021, uma festa de aniversário para a filha em uma ilha particular nas Bahamas, ao custo aproximado de R$ 5 milhões. Em setembro de 2023, ele teria desembolsado R$ 363,2 milhões em uma festa em Taormina, na Sicília, com produção, hospedagens e artistas como Coldplay e Michael Bublé.
Dados divulgados na CPMI do INSS indicaram que Vorcaro tinha R$ 2,4 bilhões declarados à Receita Federal em 2024. Investigadores avaliam, porém, que o patrimônio real do banqueiro pode superar esse valor, o que elevou a importância de localizar bens fora do Brasil.
Procedimentos conduzidos por liquidantes de empresas relacionadas ao grupo no exterior já apontaram propriedades de alto valor atribuídas ao empresário nos Estados Unidos. Uma delas é uma mansão avaliada em R$ 180 milhões na Flórida, que teria sido alvo de tentativa de venda pelo pai de Vorcaro, Henrique Vorcaro, também investigado na Operação Compliance Zero.
A falta de um mapa completo dos ativos no exterior também travou negociações para uma colaboração premiada entre Vorcaro, a PF e a Procuradoria-Geral da República. Investigadores afirmam que o empresário não indicou a localização de parte de seu patrimônio; sem acordo, ele segue preso preventivamente em uma penitenciária de Brasília.
Operação apura venda de ativos ao BRB
A primeira fase da Operação Compliance Zero ocorreu em 18 de novembro de 2025, quando Vorcaro foi preso pela primeira vez. No mesmo dia, o Banco Central anunciou a liquidação do Banco Master e de outras duas instituições financeiras ligadas ao grupo.
Vorcaro deixou a prisão no fim de novembro por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, mas voltou a ser preso em março de 2026, durante a terceira fase da operação. A investigação apura supostos crimes contra o sistema financeiro nacional na tentativa de venda de ativos do Master ao Banco de Brasília por R$ 12 bilhões.
Para a PF, a operação com o BRB buscava salvar o Master, que enfrentava dificuldades para cumprir compromissos com milhões de investidores. Os investigadores também apontam suspeitas de venda de ativos supervalorizados ou sem lastro ao banco público e de captação irregular de recursos de regimes próprios de previdência de servidores.
A defesa de Vorcaro vem negando, em depoimentos e manifestações à Justiça, o cometimento dos crimes investigados. A Polícia Federal também enviou questionamentos à defesa sobre a nova frente aberta com a Interpol, mas não recebeu resposta.
O caso ainda produziu questionamentos sobre supostas relações de Vorcaro com políticos e integrantes do Judiciário. O ministro Dias Toffoli deixou a relatoria no STF em fevereiro após pedir a redistribuição do processo; ele afirmou que nunca recebeu valores de Vorcaro ou de Fabiano Zettel, cunhado do empresário, e que não mantinha amizade com o banqueiro.
O ministro Alexandre de Moraes também foi citado em reportagens sobre um contrato de R$ 129 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de sua esposa, além de supostas mensagens atribuídas a ele. O STF negou que Moraes tenha tratado do Banco Master com o Banco Central e afirmou que análise técnica dos dados de Vorcaro concluiu que as mensagens não correspondiam aos contatos do ministro.
A PF investiga supostas vantagens econômicas pagas por Vorcaro ou pessoas próximas aos senadores Ciro Nogueira (PP-PI), Jaques Wagner (PT-BA) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Ciro e Wagner negam irregularidades; Flávio afirma que sua relação com Vorcaro era exclusivamente comercial e ligada à cobrança de parcelas atrasadas de um patrocínio legal ao filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro.