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Operação de Tarcísio custou R$ 350 milhões e abriu ciclo de 84 mortes

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Operação de Tarcísio custou R$ 350 milhões e abriu ciclo de 84 mortes

Um relatório do Instituto Vladimir Herzog aponta que as operações Escudo e Verão, realizadas pela Polícia Militar na Baixada Santista entre julho de 2023 e abril de 2024 durante o governo de Tarcísio de Freitas, seguiram a lógica das chamadas “operações vingança”. Segundo o documento, as ações deixaram 84 civis mortos e apresentaram um padrão de letalidade compatível com contextos de execuções sumárias.

A cronologia mostra que as mortes se concentraram logo depois de ataques contra policiais. Entre 27 e 31 de julho de 2023, período imediatamente posterior ao assassinato do soldado da Rota Patrick Bastos Reis, ao menos 12 civis morreram. Em fevereiro de 2024, houve dois dias com sete mortes cada. Para os pesquisadores, a repetição dos picos reforça a hipótese de retaliação coletiva, em lugar de ações orientadas por inteligência e investigação.

O perfil das vítimas também revela a seletividade das operações. No recorte reunido pelo estudo, 98% dos mortos eram homens, a idade média era de 29 anos, ao menos sete vítimas tinham entre 15 e 17 anos e cerca de oito em cada dez civis eram negros. Guarujá, Santos e São Vicente concentraram a maior parte das ocorrências.

Apenas a Operação Escudo, primeira fase da ofensiva, custou aos cofres públicos aproximadamente R$ 349,96 milhões, em valores atualizados até abril de 2025. A estimativa inclui R$ 91,9 milhões gastos pela PM, R$ 28,3 milhões pela Polícia Técnico-Científica, R$ 159,4 milhões no processamento de 958 prisões e R$ 41,6 milhões no encarceramento. O relatório calcula ainda perdas de capital humano e possíveis indenizações e afirma que a ação consumiu, sozinha, o equivalente a 1% do orçamento liquidado pela PM em 2023.

Os problemas não se limitaram ao número de mortos. Em uma amostra de 20 casos, nove cenas não foram preservadas e, em 67%, não havia imagens das câmeras corporais. Em 38%, os equipamentos estavam desligados, descarregados ou não foram utilizados. Relatos de familiares e testemunhas teriam sido ignorados em quase 80% das investigações. Ao menos 17 mortes foram arquivadas sem denúncia, enquanto 13 policiais foram acusados em sete casos. Nenhuma autoridade da cúpula da segurança foi investigada pela cadeia de comando.

Os números aparecem materializados em casos como o de Edneia Fernandes Silva, mãe de seis filhos atingida na cabeça por um tiro disparado por um policial; o de Hildebrando Simão Neto, jovem com grave deficiência visual morto dentro de casa ao lado de Davi Gonçalves Júnior; e o de Cleiton Barbosa Moura. Segundo testemunhas reunidas no relatório, Cleiton foi retirado dos braços de seu bebê e executado. Áudios de câmeras corporais registraram policiais comemorando a morte e afirmando que “o sistema é bruto”.

Nem todo episódio posterior de violência policial pode ser automaticamente enquadrado no padrão das operações da Baixada Santista. Ainda assim, casos filmados, como o do PM que jogou um homem de uma ponte na capital e o do policial que deu um soco em uma mulher com um bebê no colo em Sorocaba, mostram que o problema do uso desproporcional da força não ficou restrito à Escudo e à Verão, mas um padrão exibido durante a gestão de Tarcísio de Freitas.

A deterioração aparece também nas estatísticas gerais. As mortes decorrentes de intervenções policiais em São Paulo saltaram para 813 em 2024 e chegaram a 835 em 2025, quando representaram 23,1% de todas as mortes violentas intencionais do estado. Tarcísio chegou a reagir às denúncias contra a Operação Escudo dizendo que os críticos poderiam recorrer “à ONU, à Liga da Justiça, ao raio que o parta”, enquanto o então secretário Guilherme Derrite tratou denúncias de tortura como possíveis “efeitos colaterais”.

A Secretaria da Segurança Pública afirma que as operações prenderam 2.162 pessoas, apreenderam 238 armas e 3,54 toneladas de drogas e que todas as mortes foram investigadas. O relatório, em resposta, cobra câmeras com gravação contínua, investigações independentes, abertura da cadeia de comando, reexame dos arquivamentos, reparação às famílias e um pedido público de desculpas.

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