O Brasil registrou 6.602 mortes decorrentes de intervenção policial em 2025, o maior patamar da série histórica do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. O total subiu 5,8% em relação a 2024, quando foram contabilizadas 6.237 mortes, mesmo com a queda das mortes violentas intencionais no país para o menor nível em 14 anos.
Os dados também apontam uma crise entre os próprios agentes de segurança. Em 2025, 110 policiais tiraram a própria vida, média de uma morte a cada três dias. Embora o número represente queda de 12,7% ante o ano anterior, permanece 48,6% acima dos 74 casos registrados em 2017.
O Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, indica que o crescimento das mortes por intervenção policial continuou no primeiro semestre de 2026, na comparação com o mesmo período de 2025. Os suicídios entre agentes, por sua vez, mostram tendência de queda até junho.
Também houve 139 policiais assassinados em 2025. O número caiu em relação aos anos anteriores, mas ainda expõe os profissionais à violência, avalia Leonardo Silva, coordenador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Ele afirma que o aumento da letalidade e o adoecimento dos agentes têm relação com um modelo de segurança centrado no combate às drogas e na repressão.
Para ele, as operações alcançam sobretudo integrantes da base das facções, que as organizações criminosas substituem rapidamente, enquanto policiais seguem submetidos a estresse, violência e risco de morte.
“O resultado desse enxugar gelo permanente é um severo adoecimento físico e mental dos agntes públicos”, afirmou o coordenador. Ele aponta a falta de equipes de psicologia e psiquiatria e o medo do estigma dentro das corporações como obstáculos para que policiais procurem atendimento.
A diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, Carolina Ricardo, diz que a cultura do policial-herói dificulta a busca por ajuda psicológica. “Por trás da imagem do herói, os policiais enfrentam problemas comuns, como endividamento, uso abusivo de álcool e conflitos familiares. Sem um ambiente institucional que trate a saúde mental de forma aberta, esses problemas se acumulam”, disse.
Carolina defende políticas de valorização profissional, saúde mental e controle do uso da força. Segundo ela, governos e comandos que priorizam protocolos técnicos e fiscalização tendem a reduzir a letalidade, enquanto discursos que legitimam a violência produzem o efeito contrário.
O Ministério da Justiça informou que repassa recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública aos estados para programas de valorização dos agentes, incluindo assistência em saúde mental. A pasta citou o Projeto Escuta Susp, que oferece atendimento psicológico e psiquiátrico online, gratuito e sigiloso a profissionais das forças estaduais e guardas municipais.
Para reduzir mortes em intervenções, o ministério também mencionou o Projeto Nacional de Câmeras Corporais e o Projeto Nacional de Qualificação do Uso da Força. Os indicadores variam entre os estados: no Rio Grande do Norte, por exemplo, cresceram simultaneamente a letalidade policial, os suicídios de agentes e as mortes de policiais.