Nenhum disparate é suficiente no país dos absurdos: o patrimônio do deputado Nikolas Ferreira — a principal aposta do PL nestas eleições — aumentou em mais de R$ 3 milhões em apenas quatro anos (apenas, é claro, o que ele declarou).
O cara tinha pouco mais de R$ 36 mil em bens em 2022 e agora acumula R$ 3,9 milhões, conforme ele mesmo declarou ao registrar sua candidatura para deputado federal. Um aumento de mais de 10.000% — obsceno, para dizer o mínimo.
O parlamentar, é claro, tinha uma explicação estapafúrdia na ponta da língua: “Não há nada de errado em prosperar, crescer e construir patrimônio com trabalho honesto. O errado é enriquecer à custa do dinheiro público e da corrupção”, escreveu nas redes sociais, através das quais pastoreia seu gado.
Ao justificar o injustificável, atribuiu o aumento do patrimônio a um imóvel financiado (de mais de R$ 2 milhões), investimentos e atividades profissionais exercidas além do mandato.
Que atividades profissionais? Ele não disse, e mais uma vez ninguém perguntou.
É fato que Nikolas é talvez o primeiro candidato influenciador da história política deste país: alguém que se ocupa de polêmicas na internet em vez de fazer o que é pago para fazer. Se é a essas atividades que ele se refere, então está, sim, “prosperando” às custas da máquina pública: usa o tempo de trabalho e a projeção que recebeu por suas polêmicas patéticas no Planalto para lucrar.
Não, Nikolas, isso não é honesto, e você não poderia se importar menos.
Trabalhar como influenciador — ainda mais se você conseguir ser medíocre até nisso — não deixa ninguém milionário da noite para o dia e, embora eu não possa afirmar nada porque o jurídico não deixa, isso tem cheiro de falcatrua, sim.
A pergunta de R$ 3 milhões: a que tipo de trabalho honesto Nikolas se refere? Que investimentos são esses que rendem 10.000% em quatro anos? Mais uma vez, o parlamentar insulta nossa inteligência.
Já Erika Hilton, que declarou pouco mais de R$ 15 mil em bens, foi alvo de uma enxurrada de críticas: o valor estaria abaixo do esperado porque a deputada ganha mais de R$ 40 mil.
Essas pessoas nunca precisaram ajudar a família e os amigos financeiramente, e dá para perceber.
A respeito disso, o deputado Leonardo Siqueira – bolsonarista convicto – representou Erika na Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo, porque político de esquerda está sempre sob a mira de seus acusadores, enquanto direitistas como Nikolas fazem o que querem sem maiores questionamentos.
O principal argumento sobre a deputada são seus padrões de consumo: bolsas e roupas caras compõem seu vestuário, e nada irrita mais um bolsonarista escravocrata do que pobre bem vestido.
O que Erika veste ou calça não a coloca, por si só, sob suspeita de ocultação de patrimônio, mas a falta de honestidade intelectual de Leonardo Siqueira não o deixa confessar isso.
Dois pesos, duas medidas: uma deputada precisa explicar por que é muito pobre, enquanto um filhote do bolsonarismo fica milionário “trabalhando” na máquina pública, e isso passa quase despercebido.
Erika não é milionária porque é honesta e ilibada. Não é uma candidata influenciadora: ocupa-se de seu próprio trabalho, servir ao povo.
Já Nikolas aumenta o próprio patrimônio exponencialmente sem qualquer contribuição expressiva para seus eleitores e para o povo brasileiro — e é nele que o PL aposta.
Não se trata “apenas” de um escândalo: é o retrato do bolsonarismo se revelando mais uma vez, o retrato da impunidade e de uma desonestidade cínica.