Fernanda, mulher do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), deixou o perfil discreto para assumir protagonismo na tentativa do presidenciável de ampliar apoio entre mulheres e contornar a crise política com Michelle Bolsonaro, madrasta dele.
A dentista mantinha uma conta no Instagram sem publicações, mas passou a postar depois da oficialização de Flávio como candidato a presidente, em dezembro. A colunista Bela Megale noticiou que Fernanda também já teria um discurso preparado para defender o marido diante da possibilidade de vazamento de um vídeo comprometedor feito quatro anos atrás: diria que ele é hoje um homem convertido e melhor do que na época em que o casal teria enfrentado problemas no relacionamento.
Nas agendas previstas para Flávio após a convenção do PL, voltadas ao público feminino, Fernanda deve ocupar espaço nos palanques ao lado de nomes como a ex-presidente da Caixa Daniella Marques e a deputada federal Simone Marquetto (PP-SP).
Investigação das rachadinhas citou Fernanda em transações
Antes do novo papel na campanha, Fernanda apareceu em momentos delicados da trajetória do marido, sobretudo na investigação sobre as rachadinhas no gabinete de Flávio quando ele era deputado estadual no Rio de Janeiro. O Ministério Público denunciou a dentista e citou seu nome em trechos decisivos da ação penal, depois arquivada sem análise do mérito a partir de questionamentos técnicos apresentados pela defesa. O casal sempre negou irregularidades.
Na denúncia, os investigadores apontaram “pelo menos três métodos básicos” que justificariam a inclusão de Fernanda: pagamento de despesas da família com dinheiro em espécie, depósitos considerados suspeitos nas contas dela e transações imobiliárias com dinheiro vivo não declarado, que teria origem nos desvios na Alerj.
O Ministério Público também afirmou que as declarações de imposto de renda do casal, que oficializou a união em 2010, contrastavam com a “intensa atividade imobiliária” registrada nos quatro anos seguintes. A denúncia citou “a continuidade dos pagamentos de salas comerciais do Condomínio Barra Prime Offices, as aquisições de uma cobertura em Laranjeiras, dois apartamentos em Copacabana e outro apartamento na Barra da Tijuca, sua atual residência”.
A cobertura em Laranjeiras, na Zona Sul do Rio, custou R$ 1,7 milhão em valores de 2011. Para o MP, a família não tinha lastro financeiro para bancar a compra, e Fabrício Queiroz, apontado como suposto operador das rachadinhas, fez depósitos na conta de Fernanda que ajudaram o casal a pagar sinais do imóvel. “O aporte de recursos ilícitos no patrimônio familiar do líder da organização criminosa (Flávio) não se limitou às amostras acima identificadas”, afirmou a denúncia.
O nome de Fernanda voltou a aparecer em 2021, quando o casal comprou uma mansão de R$ 6 milhões em Brasília: metade do valor saiu à vista, e o restante entrou em financiamento do BRB previsto para 30 anos, quitado em três, em 2024. Mais recentemente, a Polícia Federal apontou Fernanda como criadora do documento que formulava um pedido de asilo para Jair Bolsonaro na Argentina de Javier Milei; ela não foi denunciada nesse caso.