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Milei deve ser levado a sério

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Milei deve ser levado a sério

Javier Milei é repugnante, como pessoa. Esteticamente, é repulsivo. Tivesse vivido na primeira metade do século passado, talvez figurasse, ao lado da mulher barbada e do homem-cão, como aberração em um circo de horrores. Seria o “costeletas que conversam com cães mortos”.

Como político, é extremista. Sua fala mente. Sua mente é escuridão. Sua encenação, sua gesticulação e seus discursos oferecem aos caricaturistas uma matéria-prima que nenhum outro político é capaz de fornecer em tamanha abundância.

É fácil rir de Milei. Muito fácil. É justamente por isso que ele é tão perigoso. O erro analítico mais simplório que se pode cometer é deter-se na pessoa e não na ação da pessoa.

Porque Milei não é apenas o homem que grita na televisão, insulta adversários, fala de maneira extravagante e cultiva deliberadamente a adolescência num corpo velho. Escolhido democraticamente, é o presidente de um país importante. A sociedade argentina votou na novidade e recebeu o velho conhecido. Votou no futuro e elegeu o passado.

Milei é, em muitos aspectos, um clássico político da direita latino-americana: apresenta-se como ruptura, mas governa em favor de interesses econômicos que não são novos; apresenta-se como inimigo da velha política, mas reproduz relações tradicionais de poder; apresenta-se como rebelde diante do sistema, mas encontra em Washington e nos organismos financeiros internacionais parte importante da sustentação de seu projeto.

Milei comanda uma nação que atravessou uma longa deterioração econômica e política e que, sob seu governo, passou a experimentar uma forma ainda mais dura de desamparo. O personagem chama atenção. A vida que existe por trás dele é que deveria nos inquietar.

Milei não é palhaço, como disse o ministro Dario Durigan, no sentido político que importa. O palhaço pode provocar riso porque o riso devolve alguma leveza à existência. Milei produz outra coisa. Sua linguagem política é construída sobre a humilhação, a hostilidade e a promessa de punição. Seu discurso transforma o Estado em inimigo, os direitos sociais em privilégios suspeitos, a solidariedade em fraqueza e o adversário político em alguém que merece ser combatido até desaparecer do campo de visão.

O grotesco é a embalagem. A mercadoria é outra.

Milei encontrou uma Argentina exausta, empobrecida e descrente da política. A inflação corroera salários e expectativas, enquanto a pobreza avançava. A Argentina estava doente antes dele. Isso, porém, não o absolve. Quem chega ao poder prometendo uma ruptura radical assume a responsabilidade pelas consequências das próprias escolhas.

Os dados ajudam a dimensionar o problema. No segundo semestre de 2025, 28,2% da população dos 31 aglomerados urbanos pesquisados pelo INDEC estavam abaixo da linha da pobreza: 8,474 milhões de pessoas. Dessas, 1,884 milhão estavam em situação de indigência. No primeiro trimestre de 2026, a taxa de desocupação chegou a 7,8%, enquanto a subocupação alcançou 11,1%.

Uma criança que deixa de comer adequadamente não se alimenta de equilíbrio fiscal. Uma família sem renda não paga suas contas com a queda da inflação. A macroeconomia pode melhorar antes da vida.

O problema começa quando o sofrimento deixa de ser tratado como urgência social e passa a ser apresentado como preço inevitável da transformação. Quanto maior a dor, mais fácil se torna chamá-la de tratamento.

A análise, portanto, precisa ir além da economia.

Sociedades feridas precisam de explicações. Quando os resultados internos não bastam, a frustração procura um inimigo. A “casta”, o peronismo, a esquerda e os sindicatos já cumpriram essa função. Agora, cada vez mais, o conflito externo pode desempenhar o mesmo papel.

A lógica é simples: quando a realidade não corresponde à promessa, não se questiona necessariamente a promessa. Questiona-se o inimigo. Se a inflação cai, mas a vida continua difícil, atribui-se o sofrimento ao passado. Se o desemprego permanece elevado, culpa-se a herança recebida. Se a oposição reage, ela passa a ser apresentada como parte daquilo que precisa ser destruído. E, quando isso não basta, constrói-se um inimigo fora das fronteiras.

Milei compreendeu a raiva argentina. O problema é que decidiu governá-la.

Para isso, o personagem é indispensável. Sua excentricidade lhe concede uma liberdade retórica extraordinária: o que seria inaceitável em outro governante pode ser absorvido como “coisa de Milei”. O insulto vira estilo. O excesso vira personalidade. A agressividade vira autenticidade. A caricatura protege a ação enquanto as relações concretas de poder permanecem no fundo.

O episódio $LIBRA é revelador. Em fevereiro de 2025, Milei promoveu nas redes sociais o criptoativo, que posteriormente despencou, desencadeando investigações e uma crise política. O caso não prova, por si só, um sistema de corrupção. Mostra, porém, a distância entre a imagem do outsider e as relações concretas de poder, dinheiro e influência que aparecem quando o personagem é retirado de cena.

É justamente aí que surge a pergunta essencial:

Quem ganha, quem perde e quem permanece fora do foco quando a política transforma uma crise social em guerra permanente contra inimigos?

A linguagem política de Milei não é neutra. Ela distribui responsabilidades, estabelece culpados, define quais interesses serão apresentados como legítimos e quais serão tratados como inimigos. Enquanto os custos da transição recaem sobre trabalhadores, famílias e aposentados, aqueles que dispõem de maior capacidade para preservar patrimônio, reorganizar investimentos ou beneficiar-se da desregulação enfrentam condições muito diferentes.

A questão, portanto, não é apenas saber se a austeridade produz sacrifícios. É saber quem suporta esses sacrifícios e quem se beneficia da nova distribuição de poder econômico produzida por eles.

Mas há algo ainda mais profundo. Milei não apenas governa a crise: ele a transforma em identidade política. A dor deixa de ser apenas consequência social e passa a ser prova de pertencimento. Sofrer torna-se sinal de que se está combatendo o inimigo correto. A austeridade deixa de ser apenas uma política econômica e passa a ser apresentada como virtude moral.

Sai a racionalidade, entra o ressentimento — e entra Lula. O tango se faz carne, e a política interna de Milei encontra sua dimensão externa.

É preciso, porém, evitar uma falsa simetria. Aos fatos.

Não existe, entre Milei e Lula, uma disputa pessoal produzida por dois líderes igualmente empenhados em alimentá-la. O confronto foi construído por Milei. Desde o início de seu governo, ele transformou Lula em um de seus alvos preferenciais, utilizando contra o presidente brasileiro uma linguagem que ultrapassa a divergência política e entra deliberadamente no terreno da agressão pessoal.

Isso ficou particularmente evidente em julho de 2026. Durante sua passagem por São Paulo para participar do lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, Milei chamou Lula de “ladrão” e “ex-presidiário” e atacou também o ministro Alexandre de Moraes. No dia seguinte, voltou a acusar o governo brasileiro de promover uma campanha contra a Argentina. A reação de Brasília foi diplomática: o governo convocou o embaixador argentino para prestar esclarecimentos.

A sequência importa.

Milei provoca. Lula reage.

Milei, internamente, transforma a reação em prova de que está sendo perseguido. E, assim, o conflito passa a alimentar a própria narrativa que o produziu.

Não se trata, portanto, de um simples desentendimento entre dois presidentes. Lula é útil a Milei precisamente porque encarna aquilo que o presidente argentino decidiu combater em sua construção ideológica: a esquerda, um Estado com função social, a integração regional e uma política externa que procura ampliar a autonomia da América do Sul.

Lula é o contraponto. E quanto mais forte esse contraponto, mais útil ele se torna para a identidade política de Milei.

Mas o confronto tem uma segunda função. Ao atacar Lula, Milei não fala apenas para os argentinos. Fala também para Washington. Sua aproximação com Donald Trump e seu apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro, em julho de 2026, reforçam a imagem de Milei como aliado regional de Trump e contraponto à influência brasileira.

Não é necessário recorrer a uma teoria conspiratória. Basta observar a convergência das ações.

Para os argentinos, Lula é apresentado como inimigo ideológico. Para Washington, Milei procura apresentar-se como aliado regional capaz de enfrentar a influência do presidente brasileiro.

É por isso que a responsabilidade pela escalada precisa ser atribuída corretamente. Lula pode responder a uma provocação, defender o Brasil e preservar as relações institucionais com a Argentina. Isso é diferente de construir sua política sobre a necessidade de transformar Milei em inimigo.

A diferença é essencial.

Milei precisa do conflito para organizar sua identidade política. Lula não precisa de Milei para definir a sua.

É nesse ponto que a disputa deixa de ser apenas retórica.

Brasil e Argentina continuam ligados por comércio, investimentos, fronteira, infraestrutura e pelo Mercosul. Quando o presidente argentino transforma o presidente brasileiro em inimigo recorrente, introduz uma lógica de confronto numa relação estratégica para toda a região.

O Brasil não escolheu essa ruptura. A Argentina de Milei está testando até onde pode levá-la.

E é aqui que a questão bilateral encontra a questão regional.

A integração regional depende de uma premissa simples: governos podem divergir profundamente e, ainda assim, preservar mecanismos de cooperação. Quando a divergência passa a ser explorada como instrumento de mobilização, a cooperação torna-se suspeita, a coordenação enfraquece e o Mercosul perde parte de sua capacidade de negociação.

Não é preciso que Milei anuncie que deseja destruir o Mercosul. Basta transformar a cooperação regional em obstáculo ideológico.

Um Mercosul dividido é mais fraco. Uma América do Sul dividida é mais vulnerável.

O Mercosul não é apenas um acordo comercial. É um instrumento de poder. Seu valor estratégico está na capacidade de seus membros negociarem juntos com parceiros muito maiores. Em janeiro de 2026, o bloco assinou com a União Europeia o Acordo de Associação e o Acordo Interino de Comércio, reforçando justamente essa capacidade de inserção internacional conjunta.

Um país isolado negocia em uma determinada escala. Países que negociam juntos possuem outra escala, outra capacidade de barganha e mais opções para diversificar parceiros e reduzir dependências.

É por isso que a aproximação de Milei com Washington merece atenção. Não porque prove que ele seja um simples agente dos Estados Unidos, mas porque revela uma convergência de interesses.

Em abril de 2025, o FMI aprovou para a Argentina um programa de 48 meses de US$ 20 bilhões. Em outubro, o Tesouro dos Estados Unidos estabeleceu com o Banco Central argentino um acordo de estabilização cambial de até US$ 20 bilhões, dos quais US$ 2,5 bilhões foram utilizados e posteriormente devolvidos.

Não se trata de afirmar que alguém em Washington tenha dado ordens a Buenos Aires.

Trata-se de reconhecer que relações de poder não dependem apenas de ordens; dependem também de convergências.

Um governo que depende de apoio financeiro externo, adota uma orientação econômica favorável à abertura e à desregulação e, simultaneamente, enfraquece mecanismos de coordenação com seus vizinhos pode produzir um resultado que ultrapassa suas intenções declaradas: uma Argentina mais próxima das grandes potências e uma América do Sul menos capaz de agir coletivamente.

A autonomia regional nunca foi um estado permanente. Foi uma construção política. E tudo aquilo que é construído politicamente pode ser desmontado politicamente.

Por isso, o problema de Milei é maior do que Milei.

Ele é a dor argentina convertida em ação política. A crise convertida em ressentimento. O ressentimento convertido em poder.

O personagem chama atenção. A mercadoria é outra. É justamente por isso que Milei deve ser levado a sério.

Heridos, lesionados detenidos es el saldo de una feroz represión contra miles y miles de manifestantes en #Argentina que realizaron una marcha pacífica donde sólo se veía un mar de banderas bajo la consigna “La patria no se vende”, y se encontraron ante un enorme operativo… pic.twitter.com/5jAQVde8iE

— David de la Paz 戴维 (@daviddelapaz) August 7, 2026

Não por seu cabelo, por seus gritos ou por suas extravagâncias. Mas porque, sob o personagem, existe uma política capaz de transformar sofrimento social em ressentimento, ressentimento em intolerância e intolerância em programa de governo. E porque, quando essa lógica ultrapassa as fronteiras nacionais, o inimigo deixa de ser apenas instrumento de mobilização interna e passa a ser instrumento de fragmentação regional.

Uma América do Sul fragmentada é mais fraca. Um Mercosul dividido é menos capaz de negociar. E países que deixam de negociar juntos tornam-se mais dependentes daqueles que possuem maior poder para impor as condições da negociação. 

Essa é a razão pela qual Milei não pode ser tratado como uma excentricidade passageira.

O problema não está no cabelo. Não está nos gritos. Não está sequer na caricatura.

Está na política que existe por trás dela.

Porque, no fim, a pergunta decisiva não é se Milei é louco, palhaço ou aberração.

A pergunta é muito mais simples — e muito mais perigosa:

Quem ganha quando uma sociedade em crise aprende a odiar, em vez de aprender a reconstruir?

Enquanto essa disputa se trava no plano dos governos e dos mercados, há pessoas que precisam comer, trabalhar, estudar, cuidar dos filhos, tratar doenças, pagar suas casas e viver com alguma dignidade.

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