Regiões habitadas por aproximadamente 900 milhões de pessoas enfrentaram em julho de 2026 o mês de julho mais quente já registrado em suas respectivas séries históricas. Ao todo, 33 países tiveram recordes de temperatura no período, segundo cálculos realizados pela AFP a partir de dados do programa europeu Copernicus.
A dimensão populacional mostra que os extremos de temperatura deixaram de ser fenômenos restritos a pequenas áreas do planeta. Quase 1 bilhão de pessoas vivem nas regiões que registraram recordes no último mês, em mais um sinal da abrangência das anomalias de temperatura observadas em diferentes continentes.
Os recordes ficaram concentrados principalmente na América Latina e no Sahel, faixa africana situada ao sul do Deserto do Saara. Países europeus também aparecem entre os territórios onde julho de 2026 atingiu temperaturas sem precedentes para o mês.
Os resultados foram obtidos a partir de uma análise independente realizada pela AFP sobre bilhões de dados disponibilizados pelo Copernicus, programa de observação da Terra da União Europeia.
A comparação utiliza o modelo climático ERA5, que permite reconstruir as condições atmosféricas em praticamente todo o planeta e confrontar as temperaturas atuais com registros das últimas décadas.
Recordes se espalham por 33 países
A ocorrência simultânea de recordes em dezenas de países reforça a dimensão internacional do episódio de calor observado em julho.
Segundo a análise, 33 nações apresentaram áreas onde a temperatura média mensal superou todas as marcas anteriores disponíveis para julho.
A América Latina aparece entre as regiões mais afetadas. O Sahel, que atravessa diferentes países africanos e já enfrenta condições climáticas particularmente vulneráveis, também concentrou um número elevado de recordes.
Na Europa, onde episódios de calor extremo têm se tornado recorrentes durante o verão, diferentes países também registraram temperaturas inéditas para julho.
O cálculo populacional considera as áreas onde as temperaturas estabeleceram novos recordes e estima que aproximadamente 900 milhões de habitantes estejam inseridos nesses territórios.
O número ajuda a dimensionar o alcance social das mudanças observadas no clima. Temperaturas excepcionalmente elevadas podem produzir impactos sobre saúde pública, agricultura, disponibilidade de água, geração e consumo de energia e funcionamento das cidades.
Como são calculadas as temperaturas
A análise utiliza informações do ERA5, conjunto de dados desenvolvido pelo serviço climático do Copernicus.
O sistema reúne uma quantidade gigantesca de informações meteorológicas e climáticas para produzir uma representação das condições da atmosfera ao longo do tempo.
Os dados combinam observações provenientes de satélites, estações meteorológicas em terra, equipamentos instalados no mar e medições realizadas na atmosfera.
Essas informações são integradas a modelos numéricos capazes de reconstruir as condições climáticas inclusive em áreas nas quais não existe uma estação meteorológica próxima.
Uma das principais vantagens desse sistema é a cobertura global e contínua. O ERA5 disponibiliza informações para todo o planeta, hora a hora, permitindo comparar regiões e períodos diferentes sob uma metodologia consistente.
A base utilizada na análise possui registros desde 1970. Dessa forma, as temperaturas de julho de 2026 puderam ser confrontadas com as registradas no mesmo mês ao longo de mais de cinco décadas.
Calor extremo amplia riscos para a população
O fato de aproximadamente 900 milhões de pessoas viverem em regiões que estabeleceram recordes chama atenção para uma das consequências mais concretas do aumento das temperaturas: a exposição humana ao calor extremo.
Períodos prolongados de temperaturas muito elevadas podem aumentar o risco de desidratação e de problemas associados ao estresse térmico, especialmente entre idosos, crianças, trabalhadores expostos ao ambiente externo e pessoas em condições de maior vulnerabilidade.
As consequências também ultrapassam a área da saúde.
Temperaturas elevadas aumentam a demanda por eletricidade devido ao uso de sistemas de refrigeração, pressionam redes de abastecimento de energia e podem contribuir para redução da disponibilidade de água em regiões atingidas simultaneamente por estiagens.
No campo, condições extremas podem afetar lavouras e rebanhos, sobretudo quando as altas temperaturas são acompanhadas por períodos de baixa precipitação.
Há ainda impactos ambientais, como maior evaporação da água do solo e da vegetação e, dependendo das condições locais, aumento do risco de incêndios florestais.
Aquecimento global aumenta ocorrência de extremos
A sucessão de recordes de temperatura em diferentes partes do planeta ocorre em um contexto de aquecimento global provocado principalmente pelo aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera.
O efeito estufa é um fenômeno natural indispensável à manutenção das temperaturas adequadas à vida na Terra. O problema ocorre quando atividades humanas ampliam a concentração de gases capazes de reter calor na atmosfera.
A queima de combustíveis fósseis, como petróleo, carvão mineral e gás natural, está entre as principais s dessas emissões.
O aumento da temperatura média global não significa que todas as regiões do planeta aquecerão de maneira uniforme ou que novos recordes serão registrados continuamente em todos os lugares.
O aquecimento, entretanto, altera a distribuição das temperaturas e aumenta a probabilidade de ocorrência de extremos de calor mais intensos ou frequentes em diferentes regiões.
Por isso, os recordes observados em julho são analisados não apenas individualmente, mas dentro de uma tendência climática de longo prazo.
Base permite comparar mais de cinco décadas
A abrangência temporal do ERA5 é fundamental para determinar se determinada temperatura constitui efetivamente um recorde.
Como os dados cobrem o planeta de forma contínua desde 1970, pesquisadores conseguem comparar julho de 2026 com o mesmo mês em cada um dos anos anteriores da série.
A metodologia também permite observar diferenças dentro de um mesmo país, evitando que apenas a média nacional esconda situações extremas ocorridas em determinadas regiões.
A análise da AFP foi realizada de forma independente a partir desses dados do Copernicus.