A Polícia Federal apontou indícios de pagamento de comissão a um lobista que teria atuado como intermediador em investimentos realizados pelo Rioprevidência em operações ligadas ao Banco Master. Segundo informações da investigação, os aportes sob análise chegam a aproximadamente R$ 3 bilhões.
As informações constam na decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, que autorizou mandados de busca e apreensão cumpridos na terça-feira (26), durante a Operação Compliance Zero.
De acordo com a Polícia Federal, Ricardo Siqueira Rodrigues teria recebido comissão equivalente a 0,6% sobre os investimentos após atuar na aproximação entre o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, e integrantes do governo do Rio de Janeiro.
PF aponta suposta atuação de intermediador
Segundo a investigação, Ricardo Rodrigues teria exercido “papel ativo” nas negociações envolvendo recursos do Rioprevidência, fundo responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões de servidores estaduais.
Mensagens interceptadas pelos investigadores indicariam que o empresário comemorava metas de captação atingidas em curto prazo e mencionava novas operações financeiras em andamento.
Conforme apuração da PF, as investigações também apontam um suposto “alinhamento político” entre Daniel Vorcaro e o ex-governador Cláudio Castro, elemento que teria facilitado os investimentos realizados pelo fundo estadual.
Os investigadores afirmam ainda que foram identificadas possíveis irregularidades nos processos internos do Rioprevidência, incluindo ausência de análises técnicas aprofundadas, credenciamentos considerados apenas formais e concentração elevada de risco financeiro.
Operação mirou endereços ligados a Cláudio Castro
Entre os alvos da Operação Compliance Zero está o ex-governador Cláudio Castro, que recebeu agentes da Polícia Federal em sua residência, localizada na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Mandados também foram cumpridos em endereços ligados a Deivis Marcon Antunes, ex-presidente do Rioprevidência.
A investigação apura suspeitas de gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro e movimentações financeiras consideradas irregulares envolvendo recursos públicos do estado do Rio de Janeiro.
O Ministério Público Federal concordou com os pedidos apresentados pela Polícia Federal e afirmou haver “indícios robustos” de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e possíveis atos de corrupção.
Nome já apareceu em outras investigações
Ricardo Siqueira Rodrigues já havia sido citado em investigações anteriores relacionadas ao mercado de fundos de pensão. Em 2018, durante desdobramentos da Operação Lava-Jato, ele foi investigado na Operação Rizoma, que apurava supostos desvios financeiros envolvendo entidades de previdência.
Posteriormente, o empresário firmou acordo de colaboração com investigadores. Segundo relatos prestados na época, ele afirmou que auditores da Receita Federal abordavam investigados para cobrar pagamentos ilegais em troca de benefícios fiscais.
Rodrigues também acusou o advogado Nythalmar Dias Ferreira de oferecer suposto acesso privilegiado ao então juiz Marcelo Bretas. O advogado negou as acusações e classificou as declarações como “obscenas”.
Empresário também foi citado no caso “QG da Propina”
O nome do empresário voltou a aparecer em outra investigação envolvendo a gestão do ex-prefeito Marcelo Crivella, no caso que ficou conhecido como “QG da Propina”.
Na ocasião, Rodrigues afirmou aos investigadores que um restaurante de sua propriedade teria sido utilizado como fachada para o recebimento de R$ 1 milhão em propina por Rafael Alves, apontado como operador financeiro do esquema.
Segundo o empresário, após a revelação, o estabelecimento teria sido alvo de disparos, em um episódio que ele classificou como possível retaliação.
CVM aplicou multa milionária
Além das investigações criminais, Ricardo Rodrigues também foi alvo de processo na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Em dezembro de 2024, o órgão aplicou multa de R$ 53,3 milhões ao empresário.
O caso envolvia um fundo de investimento criado para financiar um empreendimento hoteleiro na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Segundo relatório da CVM, havia suspeitas de superavaliação do projeto, venda de cotas com valores artificiais e pagamentos considerados irregulares a fornecedores ligados aos idealizadores do empreendimento.
A reportagem não conseguiu localizar a defesa dos citados até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto para eventuais manifestações.
A nova operação da Polícia Federal amplia a pressão política sobre o governo do Rio de Janeiro e aumenta o debate sobre a gestão de recursos previdenciários públicos.
O caso também repercute no mercado financeiro devido ao volume bilionário das operações investigadas e ao possível impacto sobre investimentos ligados ao Rioprevidência.
As investigações seguem em andamento e novos desdobramentos não são descartados pelas autoridades federais.