O senador Sergio Moro (PL-PR), que construiu sua projeção nacional como juiz da Lava Jato e símbolo do discurso de combate à corrupção, adotou nesta sexta-feira (7) um tom bem mais complacente ao falar de Valdemar Costa Neto, presidente do partido ao qual se filiou neste ano. Durante sabatina do Uol e da Folha de S.Paulo, Moro afirmou que o cacique do PL “já pagou os erros do passado” e disse ter visto “com certo espanto” uma investigação recente que o alcança.
A declaração marca uma mudança expressiva em relação ao discurso que Moro mantinha antes de se aproximar do bolsonarismo. Em janeiro de 2022, ao criticar a influência de Valdemar no governo Jair Bolsonaro, o ex-juiz lembrou que o dirigente havia sido condenado criminalmente e afirmou: “Alguém que foi condenado criminalmente por receber suborno mandando no presidente da República. Eu acho complicado”. Valdemar foi condenado no julgamento do mensalão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro e cumpriu pena.
Agora filiado ao partido comandado por Valdemar, Moro mostrou-se incomodado com uma investigação sobre uma suposta cota de emendas destinada a presidentes de partidos. “Vi a decisão com certo espanto, porque a própria decisão não afirma que houve qualquer tipo de desvio desse recurso”, afirmou. Segundo ele, dirigentes partidários podem sugerir destinos para emendas, cabendo aos parlamentares decidir se acolhem ou não as indicações.
A mudança de postura sobre Valdemar se soma à reaproximação de Moro com a família Bolsonaro. Na mesma sabatina, o senador afirmou que não retira as acusações feitas quando deixou o governo Jair Bolsonaro, em abril de 2020, após denunciar uma tentativa de interferência política na Polícia Federal. “Eu não retiro as minhas palavras”, disse.
Apesar de manter a acusação contra o ex-presidente, Moro afirmou que hoje trabalha pela eleição de Flávio Bolsonaro à Presidência. Segundo ele, a relação com Jair Bolsonaro começou a ser reconstruída na eleição de 2022 em torno de um “objetivo maior”: derrotar Lula e o PT. “Tenho certeza que nós vamos trabalhar […] para eleger o Flávio Bolsonaro como presidente da República”, declarou. O UOL registrou que Moro definiu a aproximação iniciada em 2022 nesses termos.
Na entrevista, Moro também acusou o governo Lula de interferir na Polícia Federal e afirmou que aliados do presidente teriam tentado retirar André Mendonça da relatoria de processos envolvendo Fábio Luís Lula da Silva no STF. O senador ainda acusou a base governista de tentar restringir investigações da CPMI do INSS. As acusações foram feitas por Moro, mas o material apresentado na sabatina não trouxe provas de interferência de Lula na PF.
O senador também evitou confronto com o governador Ratinho Júnior (PSD), apesar da disputa política no Paraná, e afirmou manter uma relação cordial com ele. Moro prometeu preservar projetos da atual gestão que considera positivos. Ao ser questionado sobre a possibilidade de Flávio Bolsonaro interferir na Polícia Federal caso seja eleito, evitou fazer uma previsão e disse que seria antecipar “um futuro que ainda não se realizou”.
A resposta evidencia outro contraste com 2020. Moro deixou o Ministério da Justiça acusando Jair Bolsonaro de tentar obter acesso político à Polícia Federal — acusação que diz manter até hoje —, mas agora apoia para a Presidência o filho do ex-presidente e integra o partido comandado por Valdemar, personagem que ele próprio já apontou como exemplo dos problemas de corrupção e fisiologismo na política.