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Engenheiro morre após ritual de “banho de óleo” em escola de aviação em Paraná

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Engenheiro morre após ritual de “banho de óleo” em escola de aviação em Paraná

O ritual conhecido como “banho de óleo”, tradicional em escolas de aviação, voltou ao centro das atenções após a morte do engenheiro Gustavo Henrique Lara, de 27 anos, ocorrida na noite da última quinta-feira (16), em Ponta Grossa (PR).

A prática, utilizada para celebrar o primeiro voo solo de um aluno, terminou em tragédia depois que o jovem sofreu uma grave reação alérgica. O instrutor responsável por despejar o óleo sobre Gustavo foi preso em flagrante por homicídio culposo, quando não há intenção de matar, e posteriormente liberado após pagamento de fiança.

O chamado “banho de óleo” é considerado um ritual de “batismo” em diversas escolas de aviação. A tradição consiste em jogar óleo de motor de aeronave sobre o aluno, normalmente do pescoço para baixo, para simbolizar sua entrada na comunidade dos pilotos após um dos momentos mais importantes da formação: o primeiro voo solo.

Segundo a Polícia Civil, o instrutor afirmou que o procedimento fazia parte de um costume mantido pela escola. Embora tenha sido amplamente difundido durante décadas no Brasil e também em outros países, o ritual vem sendo  gradualmente abandonado por algumas instituições.

Pilotos relataram que a prática era comum na formação aeronáutica, mas destacaram que reações alérgicas graves como a registrada no caso de Gustavo são incomuns. Algumas escolas já passaram a substituir o óleo por água durante as comemorações.

Especialistas alertam, no entanto, que o óleo de motor aeronáutico não foi desenvolvido para contato com a pele humana. A dermatologista Rafaela Salvato, da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), afirma que o produto possui finalidade exclusivamente industrial.

“O óleo de motor aeronáutico é um produto industrial, formulado para suportar temperatura e atrito dentro de uma máquina, não para tocar tecido vivo”, disse ela em entrevista ao G1.

De acordo com a médica, esses produtos não passam por avaliações de segurança dermatológica nem por testes de compatibilidade com a pele, sensibilização cutânea ou controle de pH. Ela ressalta ainda que as recomendações dos próprios fabricantes orientam evitar contato com a pele, utilizar equipamentos de proteção e realizar lavagem imediata da região em caso de exposição.

A especialista também explica que a pele humana não funciona como uma barreira completamente impermeável. Segundo ela, óleos e solventes possuem características lipofílicas, capazes de dissolver parte dos lipídios responsáveis pela proteção natural da pele.

Em situações envolvendo grandes áreas do corpo, pele aquecida, suor ou pequenas lesões causadas por barba ou atrito das roupas, a absorção de componentes químicos pode ser ampliada. Além disso, o óleo tende a permanecer aderido à pele por mais tempo, prolongando a exposição.

Outro ponto destacado por Rafaela Salvato é o risco de anafilaxia. Segundo a dermatologista, esse tipo de reação alérgica grave pode ocorrer mesmo em pessoas sem histórico conhecido de alergias e não depende da quantidade de produto utilizada.

Ela observa ainda que, durante uma comemoração, sintomas iniciais como coceira, vermelhidão, mal-estar e sensação de garganta fechando podem ser confundidos com a euforia do momento, retardando o atendimento médico. A médica considera o caso uma fatalidade, mas defende que o simbolismo da celebração pode ser mantido com alternativas como água, espuma, confetes ou champanhe, sem o uso de substâncias industriais.

Os riscos do contato com óleo de motor também já haviam sido apontados pela revisão científica ‘The Toxicity of Commercial Jet Oils’, publicada em 2001 na revista *Environmental Research*. O estudo concluiu que o contato do óleo de motores de aeronaves com a pele representa um risco à saúde, sobretudo em casos de exposição repetida ou prolongada.

Entre os principais achados estão a possibilidade de absorção de componentes tóxicos pela pele, permanência de partículas do produto no corpo após a exposição, potencial contribuição para alterações neurológicas relacionadas aos organofosforados presentes em alguns óleos, além da identificação de componentes capazes de induzir alergia de contato.

Os autores também destacam que parte das evidências sobre efeitos neurológicos está relacionada à exposição ocupacional repetida e lembram que algumas formulações desses óleos foram modificadas desde a publicação da pesquisa.

Em nota, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) lamentou a morte de Gustavo Henrique Lara e reforçou que produtos químicos aeronáuticos, como óleos e lubrificantes de aviação, não devem entrar em contato com a pele, conforme orientam os próprios fabricantes.

A agência alertou que o uso dessas substâncias em rituais de celebração oferece riscos à saúde e pode, inclusive, provocar mortes. A Anac também pediu que escolas de aviação, aeroclubes e demais organizações de instrução reavaliem esse tipo de tradição, ressaltando que a segurança deve permanecer como prioridade em qualquer atividade ligada à aviação.

Confira um exemplo do “banho de óleo”:

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