A poucos dias da conclusão da investigação comercial conduzida pelos Estados Unidos contra o Brasil, representantes do setor produtivo dos dois países intensificaram os esforços para evitar a aplicação de novas tarifas sobre produtos brasileiros. A iniciativa reúne a Amcham Brasil, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a U.S. Chamber of Commerce, que encaminharam uma carta aos governos brasileiro e norte-americano defendendo uma solução negociada.
O documento foi enviado diante da proximidade do prazo final da investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), que deverá divulgar sua decisão até 15 de julho. A expectativa entre empresários é que um entendimento antes dessa data ainda possa impedir a adoção das novas tarifas.
O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, confirmou que as conversas com autoridades brasileiras continuam, mas admitiu que ainda existem diferenças significativas entre os dois governos. Segundo ele, a decisão definitiva deverá ser anunciada em breve.
Acordo prevê negociação em duas etapas
Na proposta apresentada pelas entidades empresariais, a primeira fase seria concentrada em medidas consideradas prioritárias para reduzir as tensões comerciais e preservar a competitividade entre os dois mercados.
Entre os principais pontos estão a ampliação do acesso a mercados ligados à segurança energética, infraestrutura para inteligência artificial e data centers, além do fortalecimento da cooperação regulatória em setores como automóveis, equipamentos médicos e inovação tecnológica.
O documento também defende acelerar o processo de análise de patentes no Brasil, ampliar o combate à pirataria e estabelecer uma parceria estratégica para o desenvolvimento da cadeia de minerais críticos, considerada fundamental para a indústria de alta tecnologia.
Agenda amplia cooperação econômica
Em uma segunda etapa, a proposta prevê expandir a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos para áreas como economia digital, comércio eletrônico, segurança energética, inovação, agricultura, descarbonização industrial e facilitação do comércio.
As entidades também sugerem a renovação da moratória da Organização Mundial do Comércio (OMC), que impede a cobrança de tarifas sobre transmissões eletrônicas, além da implementação integral do Protocolo Anticorrupção do ATEC, acordo bilateral voltado à cooperação econômica.
Segundo o presidente da Amcham Brasil, Abrão Neto, o momento exige uma mobilização conjunta dos dois governos para evitar prejuízos econômicos e construir uma agenda de longo prazo capaz de fortalecer as relações comerciais entre os dois países.
Apesar das negociações em andamento, o clima entre representantes do setor privado permanece cauteloso. Durante audiências realizadas nesta semana em Washington, empresários defenderam que diversos segmentos produtivos sejam excluídos das possíveis tarifas.
Grandes empresas com operações internacionais também manifestaram preocupação durante a investigação comercial. Entre elas estão Coca-Cola, Nestlé, Tesla, Siemens, Faber-Castell e eBay, que enviaram manifestações ao governo americano solicitando que as novas tarifas não sejam implementadas.
Especialistas que acompanham as negociações avaliam que a possibilidade de suspensão total das medidas é considerada reduzida. A expectativa predominante é pela ampliação da lista de exceções ou pela revisão de parte das tarifas previstas, principalmente diante da existência de outra investigação comercial envolvendo questões relacionadas ao trabalho forçado, cuja decisão também deverá ser divulgada ainda neste mês.
Caso não haja um entendimento entre os dois governos antes da conclusão dos processos, empresas brasileiras e americanas poderão enfrentar novos custos nas relações comerciais, aumentando a pressão sobre investimentos, cadeias produtivas e consumidores dos dois países.