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Eduardo Bolsonaro, Netanyahu e o dedo do sionismo nas eleições do Brasil. Por Sara Vivacqua

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Eduardo Bolsonaro, Netanyahu e o dedo do sionismo nas eleições do Brasil. Por Sara Vivacqua

Eduardo Bolsonaro publicou nesta semana, com a palavra “honra”, uma fotografia ao lado de Benjamin Netanyahu na Blair House, em Washington.

O ex-deputado, autoexilado — condenado pelo STF e inelegível —, descreveu o reencontro com o primeiro-ministro de Israel e sua esposa, Sara Netanyahu, como um momento de oração entre líderes evangélicos, em que se falou da saúde de Jair Bolsonaro e da candidatura de Flávio.

“SATISFAÇÃO REENCONTRAR BENJAMIN NETANYAHU. Hoje tive a honra de reencontrar o Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e sua esposa, Sarah Netanyahu, na histórica Blair House, residência oficial reservada aos convidados de honra dos presidentes dos EUA. O encontro aconteceu durante uma reunião com líderes evangélicos. Além de reflexões sobre os desafios atuais, houve um momento de oração, perguntas sobre a saúde de @jairbolsonaro e a eleição de @flaviobolsonaro. A Blair House também guarda uma lembrança especial para mim. Foi lá que meu pai se hospedou em sua primeira visita oficial aos EUA, em março de 2019”, escreveu nas redes.

“Naquela ocasião, ao lado de Filipe Martins, conheci Matt Schlapp, CEO do CPAC, encontro que abriu caminho para levar o maior evento conservador do mundo ao Brasil. Foram tempos em que o Brasil caminhava ao lado das grandes democracias ocidentais, fortalecendo sua parceria com os Estados Unidos e Israel. Tenho convicção de que esses dias voltarão. E não falta muito”.

O homem a quem Eduardo se curva é alvo de um mandado de captura do Tribunal Penal Internacional (TPI), emitido em 21 de novembro de 2024, por crimes de guerra e crimes contra a humanidade cometidos em Gaza — entre eles o uso da fome como método de guerra. O mandado segue em vigor: em 15 de dezembro de 2025, a Câmara de Apelações do TPI rejeitou a tentativa israelense de barrar a investigação.

Netanyahu desembarcou em Washington para o funeral do senador Lindsey Graham — morto em 12 de julho, aos 71 anos, de forma controversa — e para uma reunião com Donald Trump na Casa Branca, em 28 de julho, a primeira desde a guerra contra o Irã. Entre os eventos oficiais, o foragido do Tribunal Penal Internacional participou de um encontro com líderes evangélicos na Blair House, organizado em grande parte pelo “Christians United for Israel” (“Cristãos Unidos por Israel”), de John Hagee.

A Blair House, residência oficial reservada aos convidados de honra do presidente americano, era simplesmente onde o genocida Netanyahu estava hospedado. Fora do jogo eleitoral, a Eduardo resta o papel de operador clandestino — não o de estadista que ele se autoatribui ao aparecer na Blair House.

Os padrinhos dos Bolsonaros

Não há registro independente de quem organizou o encontro com evangélicos, nem de como o ex-deputado condenado na Justiça brasileira entrou na seleta lista de convidados de um procurado por crimes de guerra do Norte global. Mas o próprio texto publicado por ele oferece pistas importantes sobre a rede política que sustenta essa aproximação. A reunião insere-se numa ampla rede transnacional de laços entre governos de ultradireita e evangélicos da América Latina, organizações conservadoras estadunidenses (CPAC/ACU, Family Research Council etc.) e o lobby israelense nos EUA.

As conexões diretas incluem o ex-presidente Jair Bolsonaro e o pré-candidato Flávio Bolsonaro, o ex-assessor Filipe Martins, o líder conservador estadunidense Matt Schlapp (chefe do CPAC), além de pastores e ativistas evangélicos como John Hagee, Franklin Graham e Ralph Reed. Essa rede já havia se articulado em visitas anteriores: em janeiro de 2026, Eduardo e Flávio Bolsonaro estiveram em Israel com Netanyahu, e em 25 de julho de 2026 Netanyahu enviou um vídeo elogiando Flávio na convenção do PL.

Quatro dias antes do encontro, em 25 de julho, o PL lançou em São Paulo a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, e Netanyahu enviou um vídeo à convenção: “Flávio, meu amigo, quero parabenizá-lo pelo lançamento oficial da sua candidatura. Você é um grande defensor do Brasil e da amizade entre nossos povos.”

Netanyahu foi o primeiro premiê israelense em exercício a visitar o Brasil, para a posse de Bolsonaro em 1º de janeiro de 2019; meses depois, em abril, Bolsonaro visitou o Muro das Lamentações ao lado dele, em cena inédita para um chefe de Estado estrangeiro. A promessa de transferir a embaixada brasileira para Jerusalém, repetida por Netanyahu como certa, nunca se cumpriu — mas o vínculo ideológico sobreviveu à derrota eleitoral e hoje parece se reorganizar em torno da rede transnacional da ultradireita, a mesma que trouxe o CPAC de Matt Schlapp ao Brasil em 2019, sob a organização de Eduardo e com Filipe Martins — hoje preso, condenado a 21 anos na trama golpista — entre os painelistas.

A infiltração sionista e israelense na América Latina

A presença israelense na região pede uma leitura cronológica, e não fragmentada: o que à primeira vista parecem episódios avulsos tornou-se, ao longo dos anos, parte das estruturas de poder e de influência clandestina na América Latina.

No Brasil, o caso mais eloquente é o da “Abin paralela”: sob a direção do bolsonarista Alexandre Ramagem, a agência de inteligência usou o programa de geolocalização FirstMile, da empresa israelense Cognyte. A Polícia Federal investigou o uso desse software de espionagem em operações clandestinas do governo Bolsonaro, no que estima em cerca de 33 mil monitoramentos ilegais de celulares. Entre os alvos apontados nos autos estão o ministro Alexandre de Moraes e jornalistas como Mônica Bergamo e Vera Magalhães. A investigação segue em curso no STF.

A dimensão militar é ainda mais antiga e consolidada. A Elbit Systems, gigante israelense de defesa, controla a AEL Sistemas, em Porto Alegre, e acumula contratos com as Forças Armadas brasileiras que passam da casa dos 100 milhões de dólares, incluindo a modernização dos caças F-5 da FAB. O Brasil não é exceção regional: o México é o maior cliente documentado do Pegasus, o programa espião da israelense NSO — cerca de 15 mil dos 50 mil números do vazamento do Projeto Pegasus, em 2021, eram mexicanos, alvos que incluíram jornalistas e defensores de direitos humanos.

🇺🇸 🇮🇱 SATISFAÇÃO REENCONTRAR BENJAMIN NETANYAHU

Hoje tive a honra de reencontrar o Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin @netanyahu , e sua esposa, Sarah Netanyahu, na histórica Blair House, residência oficial reservada aos convidados de honra dos presidentes dos EUA.

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— Eduardo Bolsonaro🇧🇷 (@BolsonaroSP) July 29, 2026

Na Colômbia, o presidente Gustavo Petro revelou em setembro de 2024 que o governo anterior enviara cerca de 11 milhões de dólares em dinheiro vivo a Tel Aviv, por jato particular, para comprar o Pegasus — e rompeu relações diplomáticas com Israel ao longo da guerra em Gaza, suspendendo a compra de armas de um país que chamou de “genocida”. Em 2026, derrotado por menos de um ponto por um candidato pró-Israel que prometia mudar a embaixada para Jerusalém, Petro acusou uma firma israelense de interferir na eleição.

Entrou com denúncia no tribunal eleitoral colombiano sustentando que houve quebra da cadeia de custódia digital das atas eleitorais, perda de mecanismos de autenticação dos documentos e possível utilização de infraestrutura tecnológica localizada nos Estados Unidos durante o processamento dos dados eleitorais. Em manifestações públicas, relacionou essas suspeitas à empresa israelense Black Cube, fundada por ex-integrantes do Mossad, e defendeu uma auditoria independente da eleição.

Na Argentina, Milei anunciou ao Knesset, em junho de 2025, a transferência da embaixada para Jerusalém em 2026 e converteu o país no aliado mais fiel de Israel na região. A chegada de Peter Thiel a Buenos Aires, em abril de 2026, adiciona a camada tecnológica: sua Palantir, embora empresa americana, mantém desde 2014 uma “parceria estratégica” com o Ministério da Defesa de Israel e foi apontada pela relatora da ONU Francesca Albanese como fornecedora da inteligência artificial por trás dos sistemas de seleção de alvos em Gaza. É a mesma Palantir que, como o DCM já mostrou, se infiltra no Brasil pela via de Luciano Huck e do ministro Barroso.

Nos Estados Unidos, o AIPAC afirmou ter endossado 362 candidatos e derrotado 11 “anti-Israel” em 2024, movimentando dezenas de milhões de dólares de ambos os lados do Congresso. É essa gramática — de tecnologia, armas, dinheiro de campanha e doutrina de segurança — que Eduardo Bolsonaro celebra quando posa, com a palavra “honra”, ao lado de um homem que o TPI quer sentar no banco dos réus. O aperto de mão de Eduardo Bolsonaro não é um detalhe indefensável da legenda — é a medida exata do que está sendo normalizado.

A fusão militar dos Estados Unidos e Israel

No Congresso dos EUA tramita legislação que amplia a integração tecnológica entre as forças armadas dos EUA e de Israel (a Seção 224 da proposta do NDAA 2027, às vezes chamada de “FUTURES Act”). Esse dispositivo exige do Pentágono um agente executivo para coordenar “esforços cooperativos” de P&D militar bilateral — efetivamente fundindo as indústrias de defesa. A medida, aprovada pela Câmara dos Deputados dos EUA em julho de 2026, representa o nível mais profundo de interconexão militar-estratégica EUA-Israel já proposto.

O que está em curso em Washington não é apenas uma ampliação da cooperação militar entre dois aliados. Trata-se da proposta mais profunda de integração estratégica entre os complexos militar-industriais dos Estados Unidos e de Israel desde a criação do Estado israelense.

Na prática, a legislação deixa de tratar Israel como um simples parceiro externo e passa a incorporá-lo como parte da própria arquitetura de inovação militar norte-americana. O objetivo declarado é institucionalizar uma coordenação permanente entre as bases industriais de defesa dos dois países, acelerando o desenvolvimento conjunto de inteligência artificial, guerra cibernética, sistemas autônomos, defesa antimísseis, tecnologias espaciais e demais capacidades estratégicas.

O diplomata norte-americano Chas Freeman, ex-embaixador e ex-secretário assistente de Defesa, resume a consequência geopolítica dessa mudança: uma vez fundidas as duas estruturas militares, qualquer tentativa futura de sancionar ou isolar Israel passaria, na prática, a atingir diretamente o próprio aparato de defesa dos Estados Unidos. Israel deixa de ser apenas um aliado privilegiado para transformar-se em parte constitutiva da máquina militar americana.

🇧🇷🇮🇱 ATENÇÃO: Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, manda recado apoiando Flávio Bolsonaro.

🎥 @plnacional_ pic.twitter.com/PuT3xdZSYW

— Central da Direita 🇧🇷 (@CentralDireitaB) July 25, 2026

Essa mudança altera profundamente a forma como deve ser interpretada a crescente presença israelense na América Latina. Empresas israelenses de inteligência, defesa, vigilância e tecnologia deixam de representar apenas interesses nacionais de Israel. Se a integração prevista pelo FUTURES Act se consolidar, elas passam a atuar como componentes de uma arquitetura estratégica comum entre Washington e Tel Aviv. Em outras palavras, a expansão da presença israelense na região deixa de ser apenas um fenômeno da política externa israelense e passa a integrar a própria projeção de poder dos Estados Unidos no hemisfério.

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