Por Leonardo Sakamoto, no UOL
Com problemas para manter a popularidade devido à situação econômica da classe trabalhadora argentina, o presidente Javier Milei baixou um decreto para expulsar ou proibir a entrada de estrangeiros que proferirem o que seu governo considerar ataques a argentinos por sua nacionalidade, cultura e instituições. “Quem ataca a República Argentina não é bem-vindo em nosso país”, afirmou a Casa Rosada.
A razão pela qual ele faz isso já foi bem detalhada pela Janaína Figueiredo: impotente para trazer boas notícias para a vida real dos trabalhadores, Milei está pondo em prática a cartilha da extrema direita global, gerando barulho, desviando a atenção e buscando likes com a guerra cultural.
Aproveita a onda de críticas que a seleção argentina sofreu na Copa do Mundo para tentar vender que há um complô contra o país – que, aliás, estaria sendo puxado por Lula. Sim, porque, como todos sabem, as críticas à Albiceleste ao redor do mundo são culpa do PT.
O que me interessa aqui é outra coisa: o comportamento de uma parte dos brasileiros que celebrou Milei ter vindo a São Paulo para a convenção de lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência e destilado ódio contra figuras públicas brasileiras, como Lula e Alexandre de Moraes. Mas, agora, apoia o comportamento do mandatário argentino, que quer expulsar quem criticar argentinos, afirmando que isso seria “discurso de ódio”.
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— Oficina del Presidente (@OPRArgentina) July 30, 2026
E se o governo brasileiro aplicasse uma regra semelhante? Milei, que já tinha atacado brasileiros antes da sua última viagem, teria sido impedido de entrar no país para a convenção.
E se isso fosse estendido a outros países contra os quais ele também destilou seu veneno, ele não conseguiria entrar no México, ir à China (hoje o principal parceiro comercial da Argentina ao lado do Brasil) ou mesmo rezar no Vaticano.
Mas, se o Brasil tomasse o mesmo caminho, não tenho dúvidas de que ia ter muita gente jurando de pés juntos por aqui que nosso país teria virado uma ditadura. Ou seja, ditatoriais são os adversários, e democrática é sempre a extrema direita, mesmo quando tenta um golpe de Estado.
A liberdade de expressão, nessa lógica, não é um princípio, mas um privilégio que vale só para um lado.
A Lei de Migrações, alterada pelo decreto, aponta que “dissidência ideológica” ou “crítica política” que “constituam um exercício legítimo de direitos constitucionalmente consagrados” estão fora da expulsão. Vago, muito vago. Até porque a análise dos casos será feita pelo próprio governo Milei.
O decreto de Milei escancara o método. Quem vive de guerra cultural precisa de inimigos externos para justificar o fracasso interno. Não importa se a acusação de “ódio” cabe no próprio bolso de quem governa; o que importa é ter um alvo para desviar o olhar do desemprego e da carestia que seguem batendo à porta do trabalhador argentino.
O Brasil não vai jogar o mesmo jogo porque é o adulto na sala. Infelizmente, estão sobrando poucos para arrumar a bagunça.