O ex-deputado Eduardo Cunha reclamou de “mineiros enrolados” em uma conversa sobre a destinação de emendas parlamentares a Minas Gerais, segundo a Polícia Federal. O diálogo foi citado pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, na decisão que determinou o bloqueio de R$ 6 milhões em bens do ex-parlamentar.
“Boa tarde, desculpa mas eu não aguento mais esses mineiros enrolados. Troca a de Governador Valadares por essa, pois lá também criaram caso pedindo ofício, etc. É mais fácil trocar”, escreveu Cunha à servidora da Câmara Mariângela Fialek, conhecida como Tuca.
Para Dino, a mensagem indica que Cunha exercia influência sobre a destinação e a execução das verbas, apesar de não ter mandato. O ministro afirmou que esse grau de ingerência “contrasta com a ausência de título jurídico que lhe permita dispor do orçamento público”.
A investigação identificou ao menos 21 emendas, no total de R$ 6,15 milhões, destinadas a municípios mineiros e supostamente articuladas por Cunha. Segundo a decisão, os repasses teriam sido documentados de forma a ocultar o verdadeiro responsável pelas indicações.
O caso ganha ainda mais peso político porque Cunha pretende disputar uma vaga de deputado federal por Minas Gerais em 2026. Ele exerceu quatro mandatos pelo Rio de Janeiro e nunca teve trajetória eleitoral no estado mineiro, ponto destacado por Dino na decisão.
O ministro também afirmou que alguns diálogos demonstrariam “pouco apreço” de Cunha por Minas e pelos prefeitos com quem mantinha contato. O ex-deputado, porém, declarou que escolheu o estado por considerá-lo uma “síntese do Brasil”.
A defesa de Cunha nega irregularidades e afirma que ele não apresentou, assinou ou formalizou nenhuma das emendas investigadas. Os advogados também dizem que o valor bloqueado corresponde ao total dos repasses questionados e que não há acusação de recebimento de vantagem pelo ex-parlamentar.
A defesa de Mariângela Fialek sustenta que sua atuação era “estritamente técnica, apartidária e impessoal” e que ela apenas organizava as emendas conforme decisões da Presidência da Câmara e do Colégio de Líderes.