O avião da Voepass que caiu em Vinhedo, no interior de São Paulo, não poderia ter decolado nas condições meteorológicas previstas para o voo, segundo o relatório final divulgado nesta quinta-feira (23) pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa). O acidente com o voo 2283 matou os 58 passageiros e quatro tripulantes em 9 de agosto de 2024.
A aeronave saiu de Cascavel, no Paraná, com destino a Guarulhos com dez equipamentos enquadrados na Lista de Equipamentos Mínimos, conhecida pela sigla MEL. Essa regra permite operar temporariamente com determinados itens inoperantes, desde que sejam cumpridas restrições específicas.
Entre os equipamentos com defeito estava o limpador de para-brisa. A restrição proibia a decolagem caso houvesse previsão de chuva no período de uma hora antes a uma hora depois da partida, além de alcançar as condições previstas para o pouso no destino e no aeroporto alternativo. O Cenipa concluiu que a meteorologia daquele dia impedia a realização do voo nas condições existentes.
A investigação também identificou falhas no sistema de degelo nos três voos anteriores realizados pela aeronave. Os problemas não foram devidamente registrados no diário de bordo, o que impediu a adoção dos procedimentos formais de manutenção. O relatório descreveu uma cultura organizacional marcada pela normalização de desvios, informalidade nos registros e fragilidade na supervisão dos serviços.
Durante o voo fatal, o copiloto afirmou ter esquecido de acionar o sistema de degelo. Os investigadores concluíram que a tripulação não reconheceu a gravidade da situação nem respondeu adequadamente aos alertas recorrentes emitidos pela aeronave. As ações dos pilotos também divergiram dos procedimentos ensinados nos treinamentos.
O Cenipa relacionou a atuação da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) entre os 19 fatores que contribuíram para o acidente. A agência havia identificado irregularidades técnicas e operacionais, realizado fiscalizações e aplicado sanções, mas, segundo o relatório, essas medidas não foram suficientes para reduzir os riscos e impedir que a Voepass continuasse operando com fragilidades na manutenção.
A Anac informou que analisará as conclusões e recomendações do documento em até 120 dias. A Voepass afirmou que se manifestará depois de acessar a íntegra do relatório. A investigação do Cenipa tem finalidade preventiva e não determina culpa nem responsabilidade criminal, que são examinadas separadamente por outros órgãos.