Qual a diferença entre Marcola e Bolsonaro? Marcola não tentou um golpe de Estado, nunca chefiou militares e, se tivesse oportunidade, certamente romperia uma tornozeleira eletrônica. O líder do PCC não tem filho candidato, não escreve cartas políticas e, se escrevesse recados de dentro da cadeia para empoderar seu sucessor em liberdade, seria mandado para a solitária.
A semelhança básica entre os dois é que ambos foram condenados como chefes de organizações criminosas armadas. Mas ninguém imagina que especialistas em Direito poderiam ser convocados pelos jornalões para saber se Marcola pode ou não pedir, em mensagem escrita à mão para ser lida nas redes sociais, unidade total em torno de um filho que assumiu seu legado e seus negócios.
O Bolsonaro presidiário provoca debates por causa da carta que fez para o filho livre, por uma distorção da realidade e do suposto status perpétuo de chefe político. O chefão teria o direito de se manifestar em nome da liberdade de opinião que atuais ou ex-ocupantes de cargos públicos reclamam como absoluta.
Bolsonaro teria para sempre o privilégio de ex-presidente acima de qualquer outra condição? Não. Bolsonaro é um criminoso preso. É seu status atual. Condenado, encarcerado e beneficiado pela prisão domiciliar por questões humanitárias, mas criminoso, sem os direitos políticos de poder votar e de ser votado.
Deveria estar quieto, como Marcola está, e não poderia ser pauta sobre alegadas controvérsias. Não há polêmica, não há nada impreciso ou nebuloso no fato de que é um criminoso perigoso condenado a 47 anos de prisão.
Não há nada escrito em lei alguma indicando que, por ser ex-presidente, Bolsonaro possa ter regalias ou a preservação do direito de emitir opiniões públicas sobre a situação do país que ele tentou afundar numa ditadura.
Essa é a situação do presidiário. Pode jogar cartas com Michelle, como faz todos os dias, conversar com a mulher sobre a guerra dela com o filho e pode até admitir que não tem forças para conter o conflito.
Mas não pode sair dando palpite sobre questões relacionadas com as eleições. Porque Bolsonaro foi condenado como chefe de uma organização armada que atentou contra a democracia e perdeu direitos, como qualquer outro presidiário.
E aí vamos a outra diferença importante entre Marcola e Bolsonaro. Em maio de 2006, a transferência de líderes do crime organizado para presídios de segurança máxima provocou uma onda de atentados violentos em São Paulo.
Em pouco mais de uma semana, morreram 560 pessoas, entre bandidos e pessoas inocentes, incluindo servidores públicos, em confrontos com a polícia. De dentro da cadeia, Marcola havia emitido uma ordem para que o PCC disseminasse o caos. O plano foi chamado de ‘salve geral’. Foi ouvido porque continua comandando o PCC, mesmo preso desde 1999.
Hoje, se fosse transferido de volta da mansão em Brasília para a cadeia, Bolsonaro não provocaria comoção alguma. Como não aconteceu nada quando foi preso. Como não houve grandes protestos, ao contrário do que anunciavam se prendessem um general.
Braga Netto, o mais poderoso general da República da era Bolsonaro, está preso desde 14 de dezembro de 2024. Foi para a cadeia preventivamente, antes da condenação a 26 anos de prisão. Outros generais estão encarcerados e nada aconteceu.
É uma diferença decisiva para que se compreenda o poder de ameaçar ou de blefar de criminosos que mandam em seus asseclas de dentro da prisão. Se Bolsonaro for preso de novo, será o que é desde a eclosão da guerra familiar. Um presidiário ainda chefe de facção política, mas incapaz até de conter o conflito da mulher com o filho ungido.
Alexandre de Moraes pode contribuir para mais uma vitimização de Bolsonaro, ao impedir que o filho o visite e se mandá-lo de volta à cadeia? Não. Só Michelle, ao afrontar sua autoridade dentro da própria casa, pode vitimizá-lo como líder frouxo de uma extrema direita dividida e alquebrada.