Donald Trump promove uma mudança sem precedentes recentes no comando da diplomacia estadunidense. Das 102 indicações feitas pelo presidente para postos de embaixador em seu segundo mandato, apenas dez, ou 9,8%, são de integrantes do Serviço Exterior de carreira, segundo dados da American Foreign Service Association (AFSA).
As outras 92 escolhas, equivalentes a 90,2% do total, são classificadas pela entidade como “políticas ou outras”. A categoria reúne todos os indicados que não pertencem à carreira do Foreign Service, incluindo aliados políticos, doadores, empresários e também servidores civis. O percentual representa uma ruptura com o padrão histórico da diplomacia dos Estados Unidos.
Nas últimas décadas, prevaleceu informalmente uma proporção próxima de 70% de diplomatas de carreira e 30% de indicações externas. A própria AFSA registra que, em todas as administrações desde Gerald Ford, iniciado em 1974, profissionais do Serviço Exterior ocuparam mais da metade dos postos. No segundo mandato de Trump, essa relação foi praticamente invertida.
Entre os nomes escolhidos estão figuras diretamente ligadas ao presidente e ao Partido Republicano. Trump enviou ao Reino Unido o empresário e doador republicano Warren Stephens e escolheu Charles Kushner, pai de seu genro Jared Kushner, para a França. Em Israel, o posto ficou com o ex-governador do Arkansas e ex-apresentador de televisão Mike Huckabee, aliado de longa data do republicano.
Há ainda indicados sem trajetória diplomática tradicional. Nick Oberheiden, escolhido para o Egito, é advogado e fez cerca de US$ 1,3 milhão em doações a comitês que apoiaram Trump. Para as Filipinas, o presidente escolheu Lee Lipton, empresário de Palm Beach e integrante do clube Mar-a-Lago. No Peru, o nome selecionado foi o executivo do setor imobiliário Bernie Navarro, também doador republicano.
A transformação ocorre ao mesmo tempo em que a rede diplomática estadunidense enfrenta um alto número de postos vagos. No balanço mais recente da AFSA, 107 das 195 posições acompanhadas estavam sem embaixador titular. A entidade, que representa integrantes do Serviço Exterior, afirma que a proporção atual de indicações externas está muito distante da tradição de profissionalização da diplomacia do país.
O Brasil também está inserido nesse modelo. Daniel Perez, político republicano da Flórida escolhido por Trump para a embaixada em Brasília, não é diplomata de carreira e aparece na classificação externa ao Foreign Service. Seu nome foi aprovado pelo Senado nesta sexta-feira (7), em meio à crise diplomática entre Washington e o governo Lula e às tensões provocadas pela revogação do visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti.