Na avaliação do sindicato, as ocorrências expõem a dificuldade das concessionárias para administrar uma rede ferroviária extensa, interligada e submetida a diferentes condições operacionais. Andrade sustenta que a CPTM, apesar da perda de funcionários e investimentos, conserva equipes com conhecimento acumulado sobre os ramais.
“A realidade é que as concessionárias não dão conta da complexidade da ferrovia. Já a CPTM, mesmo precarizada pelo projeto privatista do governo do estado, possui um conhecimento técnico e prático para atuar nessa complexidade de fatores operacionais”, afirmou.
O diretor lembra que entidades representativas dos ferroviários alertam há anos para os riscos da entrega das linhas. Como precedente, ele menciona a operação das linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda pela ViaMobilidade, marcada por panes, descarrilamentos e episódios em que passageiros tiveram de abandonar composições e caminhar pelos trilhos.
“Esse foi o primeiro grande sinal de alerta”, disse Andrade. “As imagens de passageiros tendo que descer na via e completar o percurso a pé se tornaram rotineiras.”
Outro efeito citado pelo sindicalista é o encerramento do Serviço 710, que permitia viajar entre Rio Grande da Serra e Jundiaí sem troca de trem. A concessão da Linha 7-Rubi eliminou a ligação direta e transferiu milhares de passageiros para a estação Palmeiras-Barra Funda, alvo de reclamações por filas, lotação e dificuldades nas transferências.
Embora represente os trabalhadores do Metrô, o sindicato afirma que acompanha as concessões da CPTM porque as falhas atingem toda a rede sobre trilhos. A entidade também avalia que o governo Tarcísio de Freitas pretende ampliar o espaço privado dentro do sistema metroviário.
O governador apresenta as concessões como instrumento para ampliar investimentos e melhorar a qualidade do transporte. Para Andrade, os acontecimentos desta semana colocam esse discurso sob pressão e ampliam a rejeição popular ao programa de privatizações.
Pesquisa Datafolha divulgada em julho mostrou que 53% dos entrevistados desaprovam a privatização das linhas da CPTM, enquanto 39% apoiam a medida. Em 2023, as parcelas eram de 45% e 49%, respectivamente.
“Tarcísio está vendo isso e tem escondido sua defesa incondicional das privatizações por motivos eleitoreiros”, afirmou o diretor. “Ele está fazendo um cálculo eleitoral de que é melhor não agitar esse tema neste momento, mas o compromisso com esses grupos econômicos que dominam as concessões continua.”
O sindicato também considera insuficiente o retorno da CPTM por apenas 90 dias. Andrade avalia que o governo tenta estabilizar o serviço durante o período eleitoral sem rever definitivamente a entrega dos ramais à Trivia.
“O que parece é que o governo do estado está querendo empurrar o problema para depois das eleições, retomando a operação para a empresa pública por um curto período de tempo”, disse. “Esses três dias de operação pela Trivia trouxeram episódios muito graves, que comprometem diretamente a segurança e a integridade dos passageiros.”
A entidade pede o cancelamento imediato da concessão das linhas 11, 12 e 13, a realização de concursos públicos, a recomposição do quadro de funcionários e novos investimentos na CPTM e no Metrô. Também defende que trabalhadores atingidos por concessões sejam absorvidos por outras empresas públicas, com preservação de cargos, escalas e salários.
“Nós, metroviários, defendemos a reestatização das linhas de trens, pois é a única forma de garantir que a lógica do lucro não prevaleça sobre a prestação de um serviço essencial”, afirmou Andrade. “Nosso horizonte é que a CPTM retome a operação de todas as linhas e que o transporte público siga operando pela lógica do interesse público.”