O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que a Argentina precisa interromper imediatamente as manifestações consideradas ofensivas pelo governo brasileiro para que seja possível reconstruir a normalidade nas relações diplomáticas entre Brasília e Buenos Aires. Em entrevista ao jornal argentino Clarín, o chanceler classificou os episódios como graves e defendeu um gesto do governo de Javier Milei para reduzir as tensões.
Segundo Vieira, a deterioração do diálogo entre os dois países chegou ao ponto de a relação bilateral ser administrada por encarregados de negócios. O ministro ressaltou, porém, que as divergências entre os governos de Lula e Milei não deveriam comprometer uma parceria construída ao longo de décadas.
Chanceler cobra fim das hostilidades
“A Argentina tem que valorizar a relação com o Brasil da maneira como o Brasil valoriza a relação com a Argentina. É preciso ser muito claro em nome dessa relação: deve-se parar imediatamente com esse tipo de agressão”, afirmou Vieira.
O ministro disse que as declarações de Milei não ficaram restritas às disputas políticas com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Na avaliação do chanceler, os ataques também alcançaram instituições brasileiras, integrantes dos Poderes e autoridades do país.
Vieira destacou ainda que os episódios ocorreram em mais de uma ocasião. “O presidente Milei não fez isso uma vez, mas em várias ocasiões em menos de uma semana”, afirmou, classificando as manifestações como graves e prejudiciais à relação bilateral.
Relação entre Brasil e Argentina supera governos
Apesar do desgaste político, Vieira afirmou que os vínculos entre Brasil e Argentina são estratégicos e devem permanecer acima das diferenças entre os presidentes de cada período. O Brasil, segundo ele, é o principal parceiro comercial da Argentina, além de manter programas e mecanismos de cooperação estabelecidos há anos.
O chanceler também citou a aproximação promovida pelos ex-presidentes José Sarney e Raúl Alfonsín, que ajudou a estabelecer uma nova fase de confiança entre os dois países, inclusive em temas sensíveis como a cooperação nuclear.
Sobre o retorno do embaixador brasileiro Julio Bitelli a Buenos Aires, Vieira condicionou a medida ao fim das circunstâncias que provocaram seu afastamento. “É necessário um gesto: parar as agressões. É um gesto simples diante da importância das relações bilaterais”, declarou.
Vieira rebate acusações e critica pressão dos EUA
Na entrevista, o ministro também negou a acusação de Milei de que o governo brasileiro teria financiado uma campanha internacional contra a Argentina. Vieira classificou a alegação como “totalmente falsa” e afirmou que a visita do então ministro da Economia argentino, Sergio Massa, ao Brasil ocorreu por razões institucionais.
O chanceler ainda rebateu a classificação de Lula como comunista e defendeu a política externa brasileira diante da disputa entre Estados Unidos e China. Segundo Vieira, o Brasil pretende manter relações comerciais e diplomáticas com diferentes regiões, sem aderir exclusivamente a um dos polos de poder.
Ao comentar as tensões com Washington, Vieira acusou os Estados Unidos de interferência em assuntos internos brasileiros. Ele citou manifestações relacionadas ao processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e criticou pressões sobre decisões de outros Poderes.
O ministro também defendeu a negociação como principal instrumento para resolver divergências comerciais e diplomáticas. Para ele, sanções e medidas punitivas tendem a dificultar acordos em vez de melhorar as condições de negociação.