O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que a Argentina precisa interromper imediatamente os ataques contra o Brasil e suas instituições para que as relações entre os dois países voltem à normalidade.
Em entrevista ao jornal argentino Clarín, concedida durante sua passagem por Cali, na Colômbia, Vieira classificou como graves as declarações recentes do presidente argentino, Javier Milei, contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e autoridades brasileiras.
“É preciso cessar imediatamente esse tipo de agressão para trabalhar no vínculo bilateral, que é tão importante”, afirmou o chanceler. Segundo ele, basta um gesto do governo argentino para abrir caminho para a retomada da relação diplomática em bases normais.
“É um gesto simples diante da importância das relações bilaterais”, disse Vieira.
A entrevista ocorre em meio ao agravamento da crise entre Brasília e Buenos Aires. Segundo o chanceler, a relação chegou ao ponto de ser administrada por encarregados de negócios, em vez de embaixadores, justamente em razão das declarações de Milei contra pessoas, instituições e poderes brasileiros.
Vieira destacou que os ataques não foram isolados. Segundo ele, Milei fez declarações contra o Brasil e contra autoridades brasileiras em diferentes ocasiões, inclusive em um evento do Partido Liberal argentino.
“Foi algo surpreendente para brasileiros e argentinos. As imagens daquele ato, a atitude do presidente argentino e as palavras graves foram algo assombroso, que depois se repetiu outras vezes”, afirmou.
Mauro Vieira pede a Milei um “gesto simples”
Para o ministro, a relação entre Brasil e Argentina é estratégica e não pode ficar subordinada às divergências entre os governos de turno.
“O relacionamento entre Argentina e Brasil é muito importante e superior a quem esteja no poder em determinado momento”, afirmou.
Vieira lembrou que o Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina e destacou a existência de décadas de acordos e mecanismos de cooperação entre os dois países, inclusive na área nuclear.
Questionado sobre o que Buenos Aires deveria fazer para superar a crise, foi direto:
“Argentina deve valorizar a relação com o Brasil da mesma maneira que o Brasil a valoriza com a Argentina. É preciso ser muito claro: deve-se parar imediatamente com esse tipo de agressão e retomar o caminho da normalidade no vínculo bilateral.”
Chanceler rejeita acusação de Milei contra o governo Lula
Vieira também rebateu a acusação de Milei de que o governo brasileiro teria financiado uma campanha internacional contra a Argentina.
“Isso é totalmente falso”, afirmou.
O ministro também rejeitou a interpretação de que a visita do ex-ministro argentino da Economia Sergio Massa ao Brasil durante o período eleitoral representasse apoio de Brasília à sua candidatura.
Segundo Vieira, Massa esteve no Brasil para tratar de assuntos relacionados à pasta econômica e se reuniu com o então ministro da Fazenda brasileiro.
“Não são coisas iguais. Não há equivalência entre isso e o que acaba de acontecer. São invenções, não são coisas verdadeiras”, afirmou.
Retorno dos embaixadores depende do fim das agressões
Questionado sobre quando o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, retornará ao posto, Vieira condicionou a volta ao fim das circunstâncias que provocaram sua saída.
A mesma lógica, segundo ele, vale para o embaixador argentino no Brasil, Guillermo Daniel Raimondi.
“Quando cessarem as condições que levaram à sua saída”, respondeu.
Na avaliação do chanceler, o caminho para a normalização é simples: “É preciso um gesto: parar as agressões”.
Vieira defende modelo econômico de Lula e rebate rótulo de “comunista”
O ministro também reagiu às declarações de Milei e de integrantes de seu governo que classificam Lula como comunista.
“Isso faz parte de todas as agressões”, afirmou.
Vieira defendeu o modelo econômico adotado pelo governo brasileiro e afirmou que o país possui uma economia aberta, forte comércio exterior e grandes reservas internacionais.
“O Brasil atua com um modelo capitalista. O presidente Lula jamais negou isso ou quis mudar esse padrão da economia”, disse.
Brasil rejeita pressão dos EUA contra a China
Na entrevista, Vieira também criticou a pressão dos Estados Unidos para reduzir a presença comercial e financeira da China na América Latina.
Segundo ele, o Brasil mantém relações importantes tanto com os EUA quanto com a China e não pretende escolher um único parceiro.
“China não está presente apenas no Brasil, mas em toda a América”, afirmou.
Vieira defendeu uma política externa baseada na ampliação das relações comerciais com diferentes regiões, citando também a Europa e o Sudeste Asiático.
Para o chanceler, a imposição de sanções e tarifas não é o melhor caminho para resolver conflitos comerciais.
“Entendo que a política de pressões e sanções não é útil. O que funciona é a negociação”, afirmou.
Segundo ele, o Brasil é favorável ao diálogo tanto com países que compartilham suas posições quanto com aqueles com os quais possui divergências.
“A imposição de sanções não tem lugar. É preciso sempre levar em conta o interesse nacional”, disse.
Vieira atribui crise tarifária à política de Washington
O chanceler também criticou a política tarifária dos Estados Unidos e afirmou que os países latino-americanos vêm sofrendo os efeitos das medidas comerciais de Washington.
Segundo Vieira, Brasil e Argentina estão entre os países afetados pelas tarifas americanas.
Ao comentar o cenário político dos EUA, afirmou que uma eventual derrota de Donald Trump nas eleições legislativas poderia reduzir a pressão tarifária.
“Se perder as eleições legislativas, talvez isso tenha um reflexo sobre essa política tarifária e ela seja aliviada”, declarou.
Vieira também voltou a criticar a atuação da família Bolsonaro nos Estados Unidos e afirmou que Jair Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro foram responsabilizados no Brasil por suas ações.
Segundo o chanceler, as medidas adotadas pelos EUA acabam produzindo efeitos sobre empresários, trabalhadores e outros setores da economia brasileira.