Meu pai me mostrou “Espelho” antes de morrer. Não me lembro o quanto antes, mas ele ainda não estava doente do câncer que o mataria.
O velho era um mistério.
Desde então, deixou de ser apenas uma canção de João Nogueira. Tornou-se uma espécie de conversa que ficou suspensa no tempo — dessas que a gente só entende completamente depois que a pessoa não está mais presente.
“Espelho” foi lançada em 1977 no disco de mesmo nome. É uma parceria de João Nogueira e Paulo César Pinheiro. Fala de infância, paternidade, formação e orfandade. O narrador olha para a própria vida tendo o pai como medida de todas as coisas.
Primeiro, como menino que observa e admira. Depois, como homem que precisa seguir sozinho. “Assim, sem perceber, eu era adulto já”, canta o João Nogueira.
Ele acredita que, apesar de tudo, o pai teria orgulho dele. Que reconheceria no filho alguma coisa de si mesmo. E então vem uma das imagens mais bonitas: o filho se torna poeta, como se a vida tivesse encontrado uma maneira de prolongar o pai através dele.
Termina com uma avertência: “Mas tão habituado com o adverso / Eu temo se um dia me machuca o verso / E o meu medo maior é o espelho se quebrar.”
Existe uma crueldade bonita aí: enquanto nossos pais estão vivos, muitas vezes não percebemos quanto deles existe dentro de nós, para o bem e para o mal. Não há remédio para essa dor, mas há canções, como essa, que ajudam a atravessar o domingo — até o domingo seguinte, pelo menos.