A Vila Mimosa, um dos mais conhecidos redutos de prostituição do Rio de Janeiro, completa 30 anos instalada na Rua Sotero dos Reis, na Praça da Bandeira. Três décadas após a transferência das profissionais da antiga Zona do Mangue, o local vive uma realidade bem diferente daquela registrada nos anos 2000, marcada pela diminuição do público, mudanças no perfil das trabalhadoras e dificuldades econômicas.
A mudança ocorreu em 1996, durante a gestão do então prefeito Cesar Maia, quando a tradicional Zona do Mangue foi desativada para dar lugar a projetos de revitalização urbana. A proposta inicial previa levar cerca de 1.800 mulheres para Duque de Caxias, mas elas acabaram sendo transferidas para um antigo frigorífico em São Cristóvão, próximo ao endereço original.
Hoje, embora continue sendo uma referência nacional, a Vila Mimosa sente os efeitos da pandemia, do esvaziamento da Região Central e do aumento da insegurança, fatores que contribuíram para reduzir significativamente a circulação de clientes.
Mudanças transformaram a realidade da Vila Mimosa
Profissionais que trabalham no local relatam que o movimento já não é o mesmo de décadas atrás. Muitas afirmam que a concorrência aumentou e que parte das mulheres passou a atuar nas ruas ou por meio de plataformas digitais.
Também há casos de profissionais que deixaram a atividade após conseguirem novas oportunidades de emprego ou formação profissional. Segundo representantes da Associação de Moradores do Condomínio e Amigos da Vila Mimosa, programas sociais e o acesso à educação contribuíram para essa mudança ao longo dos últimos anos.
Apesar da redução no fluxo de clientes, cerca de mil mulheres ainda trabalham no local. A maioria atua em sistema de rodízio, comparecendo apenas em determinados dias da semana, principalmente entre quarta-feira e domingo.
Histórias marcadas pela necessidade
Grande parte das mulheres que trabalham na Vila Mimosa chegou ao local motivada por dificuldades financeiras, abandono familiar e pela necessidade de sustentar os filhos.
Muitas relatam que encontraram na prostituição uma forma rápida de garantir renda, embora reconheçam os desafios da atividade. Entre os problemas apontados estão a queda no faturamento, episódios de desrespeito por parte de clientes e o aumento dos riscos associados ao trabalho.
Os programas variam de acordo com o perfil da profissional e podem custar entre R$ 20 e R$ 120 por cerca de 30 minutos, sem incluir despesas como aluguel dos quartos e preservativos.
Área preserva importância histórica no Rio
A antiga Zona do Mangue marcou parte da história da cidade durante todo o século XX. O espaço foi citado por escritores, músicos e artistas e tornou-se um dos símbolos da vida boêmia carioca.
Historiadores lembram que a remoção das prostitutas fez parte de uma política de reurbanização semelhante a outras ocorridas ao longo da história do Rio de Janeiro, que deslocaram populações consideradas indesejadas para diferentes regiões da cidade.
Mesmo após a mudança, a Vila Mimosa manteve viva essa tradição, tornando-se um espaço conhecido nacionalmente e retratado em livros, músicas e documentários.
Futuro depende de adaptação às novas realidades
Hoje, o reduto vive um cenário de transformação. O avanço das redes sociais, aplicativos, mudanças culturais e novas formas de trabalho alteraram profundamente o mercado da prostituição.
Ainda assim, a Vila Mimosa segue funcionando como um dos principais pontos da atividade no país e continua reunindo centenas de mulheres que encontram no local uma alternativa para garantir o sustento.
Ao completar 30 anos na Praça da Bandeira, o espaço preserva sua importância histórica, mas enfrenta o desafio de se adaptar às mudanças econômicas, sociais e urbanas que transformaram o Rio de Janeiro nas últimas décadas.