A revelação da existência da Team Jorge, uma empresa israelense especializada em operações clandestinas de influência digital, expôs o funcionamento de uma sofisticada indústria privada de desinformação capaz de interferir em eleições e manipular o debate público em diversos países, incluindo na América Latina.
Investigada por um consórcio internacional de jornalistas coordenado pela organização francesa Forbidden Stories, a Team Jorge afirma ter participado de 33 campanhas eleitorais em diferentes partes do mundo, com sucesso em 28 delas. O grupo é formado por ex-integrantes das forças de segurança e dos serviços de inteligência de Israel, além de especialistas em cibersegurança, marketing político e operações psicológicas.
No centro de suas atividades está o Advanced Impact Media Solutions (AIMS), um software desenvolvido para administrar um enorme exército de identidades falsas nas redes sociais. Segundo os próprios integrantes da organização, a plataforma é capaz de controlar cerca de 30 mil avatares digitais, perfis que simulam usuários reais e interagem de forma convincente em diversas plataformas.
Ao contrário dos antigos bots, facilmente identificáveis por seu comportamento repetitivo, esses avatares utilizam recursos de inteligência artificial para reproduzir hábitos humanos, publicar conteúdos, participar de debates, compartilhar informações e construir relações de confiança com outros usuários.
Os perfis falsos operam simultaneamente em plataformas como Facebook, Instagram, X (antigo Twitter), Telegram, Gmail, LinkedIn e YouTube. Alguns chegam a possuir contas verificadas na Amazon, carteiras de criptomoedas e perfis ativos no Airbnb, aumentando a credibilidade das identidades fabricadas.
🇮🇱🚨 In secretly recorded meetings, Israeli Jews, Hanan and associates claimed involvement in 33 presidential-level election campaigns worldwide, saying 27 were successful.
They described offering services such as hacking email/messaging accounts, sabotage, and large-scale… pic.twitter.com/Ma0vQmsi6o
— Dan Bilzerian for Congress (@ElectBilzerian) July 28, 2026
Da automação à inteligência artificial
Especialistas em desinformação apontam que a evolução das campanhas de manipulação digital deixou para trás o modelo baseado apenas em bots automatizados.
Os chamados avatares digitais representam uma nova geração de ferramentas de influência, capazes de aprender padrões de comportamento, armazenar informações obtidas durante interações e reproduzir discursos compatíveis com diferentes perfis políticos e sociais.
Segundo analistas como Danny Citrinowicz, a principal ameaça atual já não está nas contas automatizadas tradicionais, mas nesses perfis alimentados por inteligência artificial, que conseguem atuar durante longos períodos sem despertar suspeitas.
Essa tecnologia também amplia o potencial de operações de espionagem digital, coleta de dados e campanhas coordenadas de manipulação da opinião pública.
A ligação com a indústria israelense de espionagem
A origem israelense da Team Jorge chamou atenção, mas especialistas lembram que Israel abriga uma das mais desenvolvidas indústrias privadas de inteligência cibernética do mundo.
O caso mais conhecido é o do software Pegasus, desenvolvido pela empresa NSO Group e comercializado para dezenas de governos. Embora criado para investigações contra terrorismo e crime organizado, o programa foi posteriormente associado à espionagem de jornalistas, opositores políticos, ativistas e defensores de direitos humanos.
A Team Jorge representa uma evolução desse mercado, voltando sua atuação não apenas para espionagem, mas também para campanhas de influência política, manipulação de informações e ataques reputacionais.
Operações na América Latina
Segundo a investigação internacional, pelo menos quatro países latino-americanos foram alvo de operações atribuídas à Team Jorge.
No México, o grupo teria trabalhado para favorecer Tomás Zerón de Lucio, ex-chefe da Agência de Investigação Criminal durante o governo de Enrique Peña Nieto. Zerón é investigado pela Justiça mexicana por supostas irregularidades na apuração do desaparecimento dos 43 estudantes de Ayotzinapa e vive atualmente em Israel. A campanha teria buscado melhorar sua imagem pública por meio de ações coordenadas nas redes.
Na Venezuela, a organização afirma ter atuado durante o período eleitoral de 2012, promovendo conteúdos de desinformação relacionados ao então presidente Hugo Chávez.
No Equador, os irmãos William e Roberto Isaías Dassum, antigos proprietários do banco Filanbanco, teriam contratado serviços para impulsionar uma narrativa de perseguição política após a falência da instituição financeira.
A investigação também identificou atividades relacionadas a outros países, como Trinidad e Tobago, Catalunha, Califórnia e diversos processos eleitorais em diferentes regiões do mundo.
Hackeamento, manipulação e notícias falsas
Durante reuniões gravadas secretamente por jornalistas infiltrados que se passaram por clientes interessados em contratar os serviços da empresa, o fundador da Team Jorge, Tal Hanan, afirmou que sua equipe era capaz de invadir contas de Gmail e Telegram de adversários políticos, coletar informações confidenciais e influenciar veículos de comunicação.
Segundo os relatos, uma das estratégias consistia em inserir conteúdos em meios de comunicação legítimos para, posteriormente, ampliar artificialmente seu alcance utilizando a rede de avatares administrada pelo software AIMS.
Em um dos episódios narrados nas gravações, integrantes da empresa disseram ter enviado um brinquedo sexual adquirido pela Amazon para a residência de um político com o objetivo de criar suspeitas de infidelidade conjugal e provocar desgaste pessoal.
Um mercado global da desinformação
As revelações sobre a Team Jorge reforçam que a manipulação digital deixou de ser uma atividade restrita a governos e passou a integrar um mercado privado altamente sofisticado.
A investigação mostra que empresas especializadas oferecem campanhas de influência a políticos, empresários e grupos econômicos sem compromisso ideológico, atuando mediante pagamento e utilizando ferramentas cada vez mais avançadas de inteligência artificial.
O consórcio que revelou o funcionamento da Team Jorge reuniu jornalistas de cerca de 30 veículos internacionais, entre eles Le Monde, Der Spiegel e El País, sob coordenação da organização Forbidden Stories, dedicada a dar continuidade ao trabalho de jornalistas assassinados, presos ou ameaçados.
O caso acendeu um alerta para democracias e plataformas digitais, que enfrentam dificuldades crescentes para identificar redes de perfis artificiais capazes de manipular o debate público e influenciar processos eleitorais em escala global.