A instabilidade comercial provocada pelas tarifas do governo Donald Trump acelerou a busca do Brasil por novos mercados e ampliou a cobertura de suas exportações por acordos internacionais. A parcela das vendas externas protegida por pactos comerciais passou de 12% em 2024 para 31%, segundo levantamento publicado pela RFI.
No primeiro semestre de 2026, a participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras caiu de 12,1% para 9,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. É o menor percentual da série histórica iniciada em 1997. A China avançou de 28,9% para 31,5% e consolidou a liderança entre os destinos dos produtos brasileiros.
A redução da presença estadunidense atingiu setores que haviam organizado suas cadeias produtivas em torno daquele mercado. Metais, madeira, manufaturados e café solúvel estão entre os segmentos afetados; neste último, metade das exportações brasileiras tinha os Estados Unidos como destino.
O choque tarifário reforçou uma tendência de diversificação que já estava em curso. Brasil e Mercosul concluíram acordos com União Europeia, Associação Europeia de Livre Comércio e Singapura, abriram negociações com o Japão e retomaram tratativas com países como Canadá, Índia, Indonésia, Vietnã e Emirados Árabes Unidos.
Os dados do Ministério do Desenvolvimento apontam que o Brasil bateu recordes de exportações para 42 países em 2025. A Alemanha se consolidou como o quarto maior parceiro comercial e anunciou a intenção de duplicar as trocas com o país nos próximos cinco anos.
A diversificação geográfica, porém, veio acompanhada de uma concentração maior na China. Quase 90% das vendas brasileiras ao país asiático estão reunidas em quatro grupos: soja, minério de ferro, petróleo e carnes. Uma desaceleração da economia chinesa, portanto, teria efeito direto sobre as receitas brasileiras.
A queda da participação dos Estados Unidos não começou com o novo tarifaço, mas foi acelerada pela falta de previsibilidade das decisões de Trump. O desafio para o Brasil é substituir mercados perdidos sem apenas trocar a dependência estadunidense por uma exposição excessiva à demanda chinesa.