Na última sexta-feira (10), a demissão do diretor de jornalismo do Instituto Conhecimento Liberta (ICL), Leandro Demori, deflagrou uma crise interna. Demori afirmou, em carta enviada ao conselho editorial e que vazou, que a empresa passava por problemas financeiros e que, por isso, a alta gestão havia pedido um corte de 30% da área do jornalismo. A própria diretoria de jornalismo seria extinta.
Na segunda-feira, Eduardo Moreira, responsável pelo canal, entrou ao vivo para dar explicações. Moreira admitiu que as saídas de Demori e do CEO do grupo, Thiago Guedes, faziam parte de uma readequação do ICL, que, segundo ele, enfrenta dificuldades financeiras. Ao mesmo tempo, afirmou que a dispensa de profissionais com salários mais elevados seria justamente uma forma de evitar novas demissões.
No entanto, ainda na segunda-feira, teve início um amplo corte de funcionários na redação do canal. Na mesma manhã foram demitidos a apresentadora e comentarista Adriana Ferreira, o jornalista Guga Noblat, a colunista Nina Lemos, o diretor-executivo Eduardo Souza, o figurinista Thiago Barcellos, a maquiadora Juliana Zaroni e o analista de redes Pedro Barciela, entre outros.
A repórter investigativa Alice Maciel também comunicou, na manhã de segunda-feira, sua saída do canal, ampliando a lista de baixas.
Após ser desligada, a maquiadora Juliana Zaroni comentou publicamente sua demissão. “Eu sou uma delas (pessoas demitidas). Maquiadora, estou de licença por conta de uma cirurgia de prótese no quadril. O ICL não cumpre o que prega. Uma decepção”, escreveu em suas redes.
Na terça-feira, dia seguinte à primeira leva de cortes, mais seis profissionais tiveram seus contratos encerrados com o canal, totalizando 16 desligamentos até o momento.
Uma ata de distribuição de lucros do ICL referente aos exercícios de 2024 e 2025 aponta ganhos milionários dos sócios da empresa, especialmente de Eduardo Moreira e Rafael Donatiello, que concentram a maior participação.
Ao todo, foram distribuídos R$ 43.665.886,47 entre os sócios. Detentor de 57,48% da empresa, Moreira recebeu R$ 25.099.151,54. Já Rafael Donatiello, também sócio, que detém 38,32% do ICL, recebeu R$ 16.732.767,70.
Além de Moreira e Donatiello, o ICL possui outros seis sócios, que, juntos, somam 3,7% da empresa. Os valores correspondem aos lucros registrados em 2024, de R$ 5.471.893,56, e em 2025, quando o ICL obteve lucro de R$ 38.193.992,91.
Na manhã de segunda-feira, ao comentar a demissão de Demori, Eduardo Moreira também anunciou que estava encaminhando a aquisição de novas instalações para sediar o ICL.
Segundo ele, o imóvel abrigará estúdios, redação, toda a infraestrutura atualmente utilizada pelo canal e ainda um teatro destinado a eventos culturais e palestras. Moreira afirmou que esse investimento não será feito com recursos do caixa do ICL, mas com recursos próprios dele e de Rafael Donatiello.
Sindicato dos Jornalistas acompanha as demissões
O presidente do Sindicato dos jornalistas, Thiago Tanji, afirma que o sindicato acompanha com preocupação a onda de demissões do ICL, inclusive sob suspeita de que já possa se estabelecer um contexto de demissões em massa.
“É obrigação do sindicato é contatar a empresa. Então vamos enviar um ofício para a empresa. Já fizemos isso aliás pedindo uma reunião em caráter de urgência. A gente está a total disposição de todos os funcionários sobretudo os jornalistas”, disse.
Outro ponto que chama atenção é uma cláusula presente nos contratos firmados pelo ICL com seus funcionários. O documento estabelece multa de R$ 100 mil em caso de descumprimento da obrigação de manter sigilo sobre a remuneração.
O contrato determina: “b) Não revelar aos colaboradores, prestadores de serviços e/ou concorrentes da CONTRATANTE a quantia recebida a título de pagamento mensal e o percentual de coprodução direta previstos na Cláusula 4ª.”