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Saúde

Seis em cada dez pacientes com insônia relatam uso de remédios para dormir no Brasil

Rio de Janeiro7 min de leitura
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Seis em cada dez pacientes com insônia relatam uso de remédios para dormir no Brasil
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Mesmo entre pessoas que buscavam uma alternativa não farmacológica para enfrentar a insônia, o uso de medicamentos para dormir mostrou-se frequente em um estudo brasileiro com 1.158 adultos, segundo reportagem do portal g1. Seis em cada dez participantes relataram consumir algum tipo de remédio para dormir no momento da pesquisa, enquanto aproximadamente 38% afirmaram recorrer a essas substâncias de cinco a sete noites por semana.

O levantamento também identificou um dado que chamou a atenção dos pesquisadores: entre os participantes que disseram utilizar medicamentos para dormir, 40% relataram fazê-lo sem prescrição médica. Os números reforçam o alerta para a necessidade de acompanhamento profissional e de ampliação do acesso a tratamentos não farmacológicos baseados em evidências.

Os chamados medicamentos Z, categoria que inclui o zolpidem, foram os mais mencionados pelos participantes. Na sequência apareceram os benzodiazepínicos e os antidepressivos sedativos. O zolpidem, especificamente, foi o medicamento mais citado tanto entre os usuários ocasionais quanto entre aqueles que faziam uso contínuo.

Uso frequente entre pacientes que buscavam outra forma de tratamento

Dos 1.158 adultos avaliados, 442 disseram utilizar medicamentos para dormir entre cinco e sete noites por semana. O resultado chama atenção especialmente pelo perfil da população analisada: eram pessoas com sintomas de insônia que procuravam tratamento psicológico não farmacológico.

A coordenadora do estudo, Renatha El Rafihi-Ferreira, ressalta que a presença dos medicamentos no tratamento da insônia não deve ser encarada de maneira simplista. Segundo ela, essas substâncias podem ser importantes em determinadas situações, mas sua indicação precisa considerar as características individuais de cada paciente.

A análise estatística investigou diferentes fatores que poderiam estar associados ao consumo desses medicamentos. Idade, sexo, escolaridade, estado civil, atividade física e pontuações relacionadas à ansiedade e à depressão não apresentaram associação estatisticamente significativa com o uso.

Participantes brancos tiveram maior chance de usar medicamentos

Uma das diferenças identificadas pelos pesquisadores esteve relacionada à etnia. Participantes que se identificaram como brancos apresentaram 55% mais chances de usar medicamentos para dormir em comparação com participantes pretos e pardos.

Os pesquisadores analisaram se essa diferença poderia decorrer de quadros mais graves de insônia entre os participantes brancos, mas os resultados não sustentaram essa hipótese. A pontuação média no índice de gravidade da insônia foi de 19,21 entre pretos e pardos e de 19,02 entre brancos, sem diferença estatisticamente significativa.

O estudo não permite estabelecer a causa dessa associação. Entre as possíveis explicações discutidas pelos autores estão diferenças socioculturais, desigualdades no acesso aos serviços de saúde, práticas de prescrição, disponibilidade de tratamentos comportamentais e fatores estruturais mais amplos.

Terapia comportamental é tratamento de primeira linha

Apesar da presença significativa dos medicamentos na amostra, a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I) é considerada tratamento de primeira linha. A abordagem começa com uma avaliação individual para identificar características e fatores que podem contribuir para a manutenção do problema.

O tratamento trabalha hábitos e comportamentos relacionados ao sono, incluindo horários de dormir e acordar, rotina diária e a própria maneira como o paciente pensa sobre o sono. A chamada “higiene do sono”, isoladamente, não é considerada suficiente para tratar a insônia.

“Uma terapia comportamental com evidências não significa aplicar a mesma receita para todo mundo”, afirma.

A avaliação deve levar em conta aspectos como rotina profissional, horários, condições de moradia, ambiente onde a pessoa dorme, dinâmica familiar e condições sociais relacionadas à saúde física e mental.

Tentar forçar o sono pode aumentar estado de alerta

Outro ponto abordado pela pesquisadora é a tentativa de controlar excessivamente o momento de dormir. Como o sono é um processo fisiológico, a pressão para adormecer pode produzir justamente o efeito contrário.

“Quanto mais a pessoa tenta se obrigar a dormir, mais vigilante, desperta e preocupada ela pode ficar”, afirma Renatha.

O tratamento busca restabelecer condições favoráveis aos mecanismos naturais do sono. Entre as estratégias estão manter maior regularidade nos horários, permanecer ativo física e mentalmente durante o dia e voltar a associar a cama principalmente ao sono e à atividade sexual.

Depois de uma noite ruim, é comum tentar compensar o cansaço permanecendo mais tempo na cama, levantando mais tarde, cochilando durante o dia ou antecipando o horário de dormir na noite seguinte. De acordo com a pesquisadora, essas mudanças podem contribuir para perpetuar a insônia.

“A qualidade do sono é um processo de 24 horas, então desde a hora que você acorda, você está investindo no seu sono”, afirma.

Medicamentos têm papel no tratamento, diz pesquisadora

A recomendação da terapia comportamental como primeira opção não significa que medicamentos devam ser excluídos do tratamento. A decisão depende do quadro clínico e deve ser tomada após avaliação profissional.

“O medicamento pode ter um papel importante e não deve ser demonizado”, afirma.

Segundo Renatha, a análise médica deve considerar outros distúrbios do sono, transtornos psiquiátricos ou condições clínicas associadas, idade, medicamentos que o paciente já utiliza e riscos relacionados a cada substância. A partir dessa avaliação, o profissional pode decidir se existe indicação farmacológica, qual medicamento é mais adequado e por quanto tempo deve ser utilizado.

A pesquisadora também faz um alerta para pessoas que já utilizam medicamentos regularmente: a interrupção não deve ocorrer por iniciativa própria.

“Quem já utiliza regularmente não deve simplesmente interromper sozinho, precisa então de um acompanhamento médico para isso”, diz Renatha.

Resultados não podem ser generalizados para toda a população

Os próprios pesquisadores ressaltam que os números encontrados não representam todos os brasileiros com insônia. A amostra reuniu adultos entre 18 e 59 anos, com idade média de 38,9 anos, e apresentava características específicas: a maioria dos participantes era mulher, tinha ensino superior, se identificava como branca e vivia na Região Sudeste.

O recrutamento foi realizado entre março de 2021 e julho de 2022, por meio de anúncios em redes sociais divulgados pelo Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo. Os voluntários tinham sintomas de insônia e procuravam tratamento psicológico não farmacológico em um protocolo de pesquisa realizado em serviço universitário especializado em sono.

O método de recrutamento digital também pode ter favorecido a participação de pessoas com maior escolaridade, familiaridade com ferramentas digitais e interesse em buscar tratamento psicológico.

Por isso, os índices de 60% de uso atual de medicamentos e de 38% de consumo entre cinco e sete noites por semana descrevem especificamente a população pesquisada e não devem ser interpretados como prevalência de uso de remédios para dormir no Brasil.

Há outras limitações. As informações sobre sintomas e medicamentos foram fornecidas pelos próprios participantes, sem verificação de prescrições, doses ou duração total dos tratamentos. Como o estudo é transversal, também é possível identificar associações entre fatores, mas não estabelecer relações de causa e efeito.

Pesquisadores defendem maior acesso a alternativas

Os resultados, segundo os autores, indicam a necessidade de investigar sistematicamente o consumo de medicamentos entre pessoas com sintomas de insônia, principalmente entre aquelas que procuram alternativas não farmacológicas.

Os pesquisadores defendem uma avaliação cuidadosa da indicação, da duração e da necessidade de continuidade de medicamentos hipnóticos, incluindo a observação de possíveis efeitos adversos e dos padrões de consumo ao longo do tempo.

Ao mesmo tempo, apontam a necessidade de ampliar o acesso a intervenções não farmacológicas baseadas em evidências, especialmente a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia. A integração entre psicoterapia e manejo responsável dos medicamentos é apontada como um caminho para reduzir usos inadequados e melhorar o tratamento de pessoas com insônia.

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