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Sakamoto: Debate virou programa para jornalista e torcida, além de usina de cortes

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Sakamoto: Debate virou programa para jornalista e torcida, além de usina de cortes

Por Leonardo Sakamoto do Uol

Apesar de alguns bons momentos de embate de ideias, o debate na Band entre Fernando Haddad e Tarcísio de Freitas serviu mais para a produção de cortes de vídeos para as campanhas do que para convencer os eleitores paulistas. E não foi o único, uma vez que outros debates pelo país na noite deste domingo (9) também incorreram no mesmo pecado.

O povo, que deveria ser o fim máximo da política, não foi o público-alvo. Se fosse, os candidatos falariam português coloquial, e não uma língua melhor compreendida pelas bolhas política e econômica.

De resiliência hídrica a parceria público-privada e números entregues sem checagem, o eleitorado pensa: “Hum, melhor assistir à mesa-redonda de futebol”. Não à toa, em determinado momento, a audiência da classificação do Campeonato Brasileiro estava maior que a do debate na home page do UOL.

E, historicamente, a culpa não é do veículo de comunicação que organiza o evento, mas das próprias campanhas Brasil afora. Seja porque temem perder o controle caso as regras mudem, porque os candidatos não se dedicam a traduzir melhor a realidade para o povaréu ou não têm propostas organizadas e factíveis.

Não estou dizendo que Haddad e Tarcísio não sejam preparados. Mas o que será lembrado serão as cutucadas e estocadas sobre o crime organizado, o boné de Trump que o governador colocou, as defesas de Lula e Bolsonaro. E não políticas voltadas à melhoria da vida real da população.

Um amigo do Campo Limpo, bairro da periferia em que cresci, acaba de me escrever perguntando o que eles propuseram de verdade para que ele não tenha mais medo de usar o celular na rua ou para que pare de faltar água na casa da mãe dele — e eu não consegui responder.

O modelo dos debates aprovados por candidatos no Brasil não ajuda. Jornalistas acompanharam, como sempre, por dever de ofício. E as torcidas organizada de ambos os candidatos também — desconfio que mais para xingar o outro do que para entender melhor as políticas propostas, como pode ser visto pelo chorume que escorre das caixas de comentários. Mas uma grande parte do eleitorado passou longe.

As direções dos veículos que promovem debates afirmam que tentam mudar o modelo, mas as candidaturas não aceitam.

Fernando Haddad concluiu o debate botando Tarcísio no bolso. pic.twitter.com/IJzPgJNIJ2

— PRAVDA-BR (@pravda_br) August 10, 2026

Assim, é comum que os sucessivos debates tratem sistematicamente dos mesmos assuntos. Audiências diferentes, repetição necessária, vocês dirão. Mas eu discordo.

Primeiro, porque há uma diluição na importância dos embates, fazendo, em alguns casos, com que líderes faltem aos encontros realizados por veículos com menor audiência. Desta vez, por exemplo, Eduardo Paes (PSD-RJ), Sergio Moro (PL-PR), entre outros, deram o cambau.

Segundo, porque reduz também a profundidade de escrutínio de certos temas. Imagine se colegas da imprensa tivessem blocos inteiros para perguntar apenas sobre economia (a real, que afeta os trabalhadores)? E o apresentador retrucasse com checagem em tempo real das respostas?

Isso poderia ser resolvido com debates temáticos transmitidos por um pool de veículos de comunicação, como ocorre nos Estados Unidos. Agregar, para um mesmo debate, várias redes de TV, emissoras de rádio, sites, portais, páginas e contas em rede social.

Não raro, mediadores de debates tradicionais, jornalistas muito bem preparados, acabam se tornando bedéis do tempo e da insanidade alheia e entregadores de direitos de resposta, quando poderiam pressionar os candidatos, não deixando que fugissem das questões ou até retrucando com a ajuda de checadores de fatos. Em São Paulo, o embate foi educado. Mas em outros lugares do Brasil, não.

Imagine um debate inteiro sobre geração de empregos e saúde pública? Outro sobre segurança pública e violência contra as mulheres?

Se novos formatos privilegiarem o aprofundamento de questões de interesse da população em vez de permitir que os candidatos apenas batam cartão ou treinem frases que se tornarão recortes de vídeos nas redes, teremos uma população mais bem alertada sobre o conteúdo (ou a falta dele) de cada um.

Todos os debates são fundamentais e essenciais para a formação do voto. Quem falta a um deles não apenas ofende a democracia, mas mostra que o silêncio e o vácuo de respostas podem ser uma de suas estratégias de governo, caso eleito.

As campanhas precisam permitir que novas regras e modelos sejam implementados. Ou elas confiam tão pouco em seus candidatos, achando que, feito bactérias, eles derreteriam ao sol?

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