Por Leonardo Sakamoto, no UOL
“Desacreditar o sistema de votação brasileiro é desconvidar o eleitor brasileiro a participar da maior festa democrática do Brasil.” A declaração de Nunes Marques, presidente do TSE, contrasta com o que foi pregado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), um dos responsáveis, aliás, pela indicação do ministro ao STF. O candidato à Presidência colocou em dúvida as urnas eletrônicas em reunião com embaixadores. Tal pai, tal filho.
Todo estelionatário conta com a boa fé, a ingenuidade ou o desespero de sua vítima. Quando alguém cai no conto do falso sequestro, no clique do link premiado ou no golpe do Pix, o roteiro pós-tragédia é quase sempre universal. Assim que a ficha cai, o suor frio escorre pela espinha, o desespero toma conta e, logo em seguida, vem uma vergonha paralisante.
A vítima se esconde, chora as economias perdidas e tem dificuldade até de contar para a família que entregou seu suado dinheiro para um malandro qualquer. É uma dor solitária.
No entanto, há um outro tipo de estelionato circulando livremente e em escala industrial pelas redes sociais em que a dinâmica da fraude sofre uma mutação bizarra. Nele, a vítima é roubada à luz do dia e, mesmo quando a ciência, as instituições ou o jornalismo esfregam as provas do crime na sua cara, ela não sente um pingo de vergonha.
Pelo contrário, o semovente defende o golpista com unhas e dentes. Mais do que isso, vota nele.
A desinformação sistêmica que corre solta no WhatsApp, no Telegram e nas redes opera exatamente como um esquema de pirâmide financeira, só que o ativo surrupiado é muito mais valioso do que o saldo da sua conta corrente.
Quando milícias digitais e políticos sem escrúpulos disparam mentiras sobre fraudes inexistentes nas urnas eletrônicas, eles não estão exercendo a liberdade de expressão. Na prática, estão roubando o seu voto, o seu direito de expressar sua vontade e acreditar estar sendo respeitado e a percepção de viver em uma democracia estável para garantir que extremistas atinjam o poder à custa do caos.
O roubo continua em outras frentes, sempre cobrando um preço altíssimo. Quando pastores do apocalipse digital e charlatães de jaleco espalham o terror contra vacinas, não se trata de um debate de opiniões divergentes. Essa desinformação rouba a sua saúde e a vida de centenas de milhares de pessoas, transformando a qualidade de vida em trincheira de guerra cultural para gerar engajamento e lucro. Você paga com a própria vida pelo clique alheio.
E a pilhagem atinge até quem ainda nem nasceu. O negacionismo climático, que jura de pés juntos que o aquecimento global é uma invenção de bilionários pedófilos, cavaleiros templários e, claro, do Leonardo Di Caprio, para atrapalhar a economia brasileira, serve apenas para garantir o lucro de curto prazo de um punhado de bilionários. Que, ao negar a fervura do planeta, eles mantém o atual modelo de desenvolvimento, predatório até o osso. Com isso, roubam o seu futuro, entregando em troca um mundo de secas severas, cidades debaixo d’água e lama e escassez de comida.
O que torna esse estelionato digital uma das maiores tragédias de nosso tempo é a fidelidade canina do fraudado ao seu fraudador. Se um bandido foge com o seu dinheiro, você liga para a polícia e exige justiça. Mas se o político de estimação rouba a sua realidade, a sua saúde, a sua segurança democrática e o futuro dos seus filhos, você o chama de “mito” ou de “salvador da pátria” e vai para a rua brigar com a própria família para defendê-lo.
O grande trunfo do golpismo digital baseia-se nessa mágica perversa: eles batem a sua carteira enquanto contam uma mentira que afaga os seus piores preconceitos. E a vítima, inebriada, ainda pede bis e aperta confirma.