Pular para o conteúdo

Relatório da CPI da PrevCampos revela auditorias, dezenas de depoimentos e encaminhamentos que nunca chegaram ao conhecimento da população

Expresso Rio

Documento de 127 páginas produzido pela Câmara de Campos analisou a gestão do instituto de previdência entre 2015 e 2016, reuniu auditorias do Ministério da Fazenda, da Controladoria Municipal e da Fundação Instituto de Administração e terminou com recomendações formais; hoje, diante do déficit bilionário da PrevCampos, o relatório volta ao centro do debate público.

Durante anos, o relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da PrevCampos permaneceu praticamente desconhecido da maior parte da população de Campos dos Goytacazes. O documento, concluído em 5 de março de 2020, possui 127 páginas, reúne documentos técnicos, auditorias, análises financeiras e dezenas de depoimentos colhidos ao longo de meses de investigação sobre a gestão do Instituto de Previdência dos Servidores Municipais (PrevCampos) no período compreendido entre dezembro de 2015 e dezembro de 2016.

A existência desse relatório ganha novo peso em 2026. Nos últimos anos, a situação financeira do regime próprio de previdência dos servidores municipais passou a ser marcada por um déficit atuarial bilionário, perda do Certificado de Regularidade Previdenciária (CRP) e sucessivos questionamentos sobre a sustentabilidade do sistema.

Nesse contexto, o documento produzido pela Câmara deixa de ser apenas um registro histórico e passa a representar uma importante

Uma investigação que mobilizou meses de trabalho

A CPI foi instituída em agosto de 2019 por ato da Presidência da Câmara Municipal para apurar possíveis irregularidades na administração dos recursos do PrevCampos entre os anos de 2015 e 2016. A comissão foi presidida pelo vereador Paulo César Genásio, tendo como relator Cláudio Nogueira Andrade Filho, além dos integrantes Enock Amaral Oliveira, Jairo Videira Macedo e Marcelle Almeida Pinheiro Caetano.

Ao longo dos trabalhos, os parlamentares solicitaram documentos oficiais, realizaram oitivas e analisaram relatórios de investimentos, políticas de aplicação de recursos e pareceres técnicos produzidos por diferentes órgãos de controle.

Segundo o próprio relatório, a investigação foi dividida em etapas, envolvendo requisição de documentos, análise técnica das aplicações financeiras e depoimentos de gestores, conselheiros, ex-dirigentes e servidores ligados ao instituto.

Um dos aspectos mais relevantes do relatório é a reunião de auditorias produzidas por diferentes instituições.

O documento incorpora análises realizadas por:

Ministério da Fazenda;

Secretaria Municipal de Transparência e Controle;

Fundação Instituto de Administração (FIA).

A presença dessas auditorias amplia o alcance técnico da investigação parlamentar, permitindo que a comissão confrontasse documentos internos da PrevCampos com avaliações produzidas por órgãos especializados.

Grande parte do relatório dedica-se à política de investimentos adotada pelo PrevCampos durante 2015 e 2016.

Segundo os documentos examinados pela CPI, a política de investimentos previa princípios como:

preservação do equilíbrio financeiro e atuarial;

segurança das aplicações;

liquidez;

rentabilidade;

transparência;

boa governança.

Também estabelecia critérios para avaliação prévia dos investimentos, acompanhamento periódico dos resultados e observância das normas editadas pelo Conselho Monetário Nacional.

Os relatórios mostram que, em março de 2015, o patrimônio administrado pelo instituto ultrapassava R$ 1,14 bilhão, distribuído principalmente entre aplicações de renda fixa, concentradas em instituições financeiras de grande porte.

Ao final daquele exercício, o patrimônio alcançava aproximadamente R$ 1,18 bilhão, resultado que, segundo o relatório, refletia desempenho positivo das aplicações financeiras naquele período.

Fundo desenquadrado chamou atenção

Entre os pontos destacados pela comissão aparece um investimento classificado como desenquadrado.

O relatório registra a existência de aplicação no fundo Golden Tulip Belo Horizonte FII, apontando que o ativo se encontrava fora dos parâmetros previstos para a carteira naquele momento.

A CPI analisou ainda a distribuição dos recursos entre instituições financeiras, o desempenho das aplicações e as recomendações apresentadas pela consultoria especializada responsável pelo acompanhamento da carteira.

Os documentos mostram que a própria política de investimentos para 2016 alertava para um cenário econômico considerado extremamente desafiador.

O texto recomendava maior cautela dos gestores, priorizando a preservação do patrimônio e o controle dos riscos diante da instabilidade econômica nacional.

Também estabelecia limites para aplicações em renda variável e vedava determinados tipos de investimentos considerados inadequados para regimes próprios de previdência.

Mais de vinte depoimentos

Além da análise documental, a CPI promoveu uma extensa fase de oitivas.

Foram ouvidos presidentes da PrevCampos, integrantes do Conselho Deliberativo, membros do Conselho Fiscal, gestores financeiros e outros agentes ligados à administração do instituto.

Entre os depoentes citados no relatório estão:

André Luiz Gomes de Oliveira;

Ricardo Pessanha Gomes;

Nelson Afonso de Souza Oliveira;

Jonas Rodrigues Tavares;

José Elimar Kunsch;

Edílson Peixoto Gomes;

Danielle Campos Tavares Peixoto Gomes;

Jorge William Pereira Cabral, entre diversos outros.

Em um dos depoimentos registrados pela comissão, um integrante do Conselho Deliberativo declarou que não possuía conhecimento técnico suficiente para exercer a função e informou ter solicitado sua exoneração do colegiado.

A tentativa de ouvir a ex-prefeita

O relatório também registra que a CPI tentou ouvir a então ex-prefeita Rosinha Garotinho.

Segundo a comissão, a notificação enviada ao endereço conhecido retornou com a informação de que ela havia se mudado, impossibilitando a realização do depoimento antes do encerramento dos trabalhos.

O capítulo mais importante ainda precisa ser respondido

O relatório termina com um capítulo denominado “Encaminhamentos”, indicando que, ao concluir a investigação, a comissão propôs providências decorrentes das informações reunidas.

Entretanto, passados mais de seis anos, permanecem perguntas que ainda merecem resposta:

Quais órgãos receberam oficialmente o relatório?

Houve encaminhamento ao Ministério Público?

Alguma investigação criminal foi instaurada?

Foram propostas ações de improbidade administrativa?

As recomendações foram implementadas?

Houve responsabilização de agentes públicos?

A situação atual da PrevCampos torna inevitável a comparação entre os alertas produzidos pela CPI e o cenário vivido atualmente.

Nos últimos anos, o instituto passou a enfrentar um déficit atuarial bilionário e dificuldades que colocaram o regime previdenciário municipal no centro do debate público.

Nesse contexto, especialistas em previdência costumam destacar que relatórios produzidos por CPIs e auditorias representam instrumentos relevantes para reconstruir a evolução administrativa e financeira dos regimes próprios de previdência.

Mais do que revisitar decisões tomadas no passado, a análise desses documentos permite compreender se problemas identificados anteriormente foram corrigidos, ignorados ou acabaram contribuindo para a situação enfrentada atualmente.

A partir da análise do relatório, o Expresso Rio iniciará uma série de reportagens para responder questões que permanecem sem esclarecimento público:

O destino dos encaminhamentos finais da CPI;

As recomendações das auditorias que foram ou não cumpridas;

A evolução do patrimônio da PrevCampos após 2016;

As decisões de investimento tomadas naquele período;

A atuação dos órgãos de controle;

A relação entre os fatos investigados pela CPI e a atual situação financeira do instituto.

O objetivo é reconstruir, com base em documentos oficiais, a trajetória administrativa da PrevCampos e verificar quais medidas efetivamente foram adotadas após a conclusão da investigação parlamentar.

autores
tópicos relacionados

Deixe seu comentário

Seu e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.