O filme “Dark Horse”, produção inspirada na trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro, virou alvo de forte repercussão política e cultural antes mesmo da estreia oficial. Previsto para chegar aos cinemas em setembro, poucas semanas antes das eleições presidenciais, o longa apresenta uma narrativa marcada por simbolismos religiosos, elementos de conspiração política e linguagem cinematográfica inspirada em grandes produções de Hollywood.
Segundo informações divulgadas pela Folha de S.Paulo, o roteiro foi escrito em inglês pelos cineastas Cyrus Nowrasteh e Mark Nowrasteh e coloca Bolsonaro no centro de uma construção dramática semelhante à chamada “jornada do herói”, modelo clássico utilizado em franquias como Star Wars e Harry Potter.
Ao longo da narrativa, o ex-presidente aparece retratado simultaneamente como líder improvável, homem comum e figura associada a sinais espirituais. A estreia está prevista para acontecer poucas semanas antes da eleição presidencial, fator que ampliou o debate político em torno da obra.
De acordo com a reportagem, o longa utiliza uma abordagem cinematográfica que alterna momentos de proximidade popular com cenas carregadas de simbolismo religioso.
Em uma das passagens do roteiro, uma jornalista pergunta ao personagem inspirado em Bolsonaro:
“Debaixo de tudo isso, o que você é?”
A resposta apresentada no texto resume o tom da produção:
“Algo que você nunca encontrou — um homem.”
Outro trecho citado descreve a aparição de uma senhora misteriosa segurando uma Bíblia durante um almoço em família. Segundo o roteiro, ela afirma ter sido enviada por Deus e entrega pílulas caseiras ao então candidato presidencial, dizendo que elas o protegeriam de uma “febre iminente”.
Após o atentado sofrido durante a campanha eleitoral de 2018, a mesma personagem reaparece no hospital e declara:
“Deus seja louvado. Ele poupou você para a nação, para o mundo.”
O roteiro mistura política, religião e narrativa messiânica, estratégia que passou a gerar discussões nas redes sociais e entre críticos do projeto.
Outro ponto que provocou repercussão envolve a maneira como jornalistas e correntes políticas aparecem descritos no roteiro.
Segundo a apuração publicada pela Folha, o texto técnico do filme utiliza expressões como “abutres” para definir jornalistas e trata o socialismo como uma “doença infecciosa”.
As expressões não aparecem apenas nos diálogos dos personagens, mas também em descrições internas do roteiro utilizadas para orientar a construção das cenas.
O filme ainda faz referências indiretas e diretas a figuras políticas brasileiras.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva surge por meio de imagens de arquivo. Já a deputada federal Maria do Rosário aparece transformada na personagem fictícia “Gloria de Rosales”.
O autor da facada contra Bolsonaro, Adélio Bispo de Oliveira, também surge com nome alterado no roteiro. Segundo a publicação, o personagem é apresentado inicialmente em um ambiente sombrio dentro de um bar.
Outra referência que chamou atenção envolve um personagem descrito como um homem “careca” e “esguio”, interpretado como possível alusão ao ministro do STF Alexandre de Moraes.
Produção reúne nomes de Hollywood e do Brasil
O protagonista da produção é interpretado pelo ator Jim Caviezel, conhecido mundialmente por viver Jesus Cristo no filme “A Paixão de Cristo”.
Michelle Bolsonaro será interpretada pela atriz Camille Guaty. Já Eduardo, Carlos e Flávio Bolsonaro aparecem representados respectivamente pelos atores Edward Finlay, Sergio Barreto e Marcus Ornellas.
O diretor Cyrus Nowrasteh possui histórico ligado a produções religiosas e políticas, incluindo “O Jovem Messias”, reforçando a presença do tom espiritual em “Dark Horse”.
O longa ainda não aparece oficialmente na base comercial da Ancine, segundo informações citadas na reportagem.
Além do conteúdo do roteiro, o cronograma de lançamento também passou a chamar atenção.
“Dark Horse” tem estreia prevista para 11 de setembro, cerca de um mês antes das eleições presidenciais, cenário que intensificou debates sobre eventual impacto político e eleitoral do longa.
Segundo especialistas ouvidos em discussões públicas nas redes sociais e na imprensa, filmes com forte carga ideológica lançados em períodos eleitorais costumam provocar debates sobre influência cultural e narrativa política.
Até o momento, não há registro oficial divulgado de posicionamento da Ancine sobre eventual análise comercial da produção.
O filme segue cercado por discussões envolvendo financiamento, bastidores e a forma como figuras políticas brasileiras são retratadas no cinema em ano eleitoral.