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Parem de confundir um fascista e vigarista com o povo argentino

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Parem de confundir um fascista e vigarista com o povo argentino

A prova de que a Argentina é racista foi dada pela eleição de Milei. É o que dizem brasileiros com o mesmo nível de estupidez política dos fascistas de um país que já elegeu Bolsonaro, quase o reelegeu em 2022 e agora, dividido ao meio, aposta no filho dele.

Milei não existe porque a Argentina é xenófoba e racista. Existe porque as mobilizações antissistema, como Bolsonaro dizia no Brasil, e a luta anticasta, como Milei diz na Argentina, foram mais convincentes do que os apelos das esquerdas e dos democratas.

Reduzir toda ou a maioria da população argentina à condição de racista seria o mesmo que cair na armadilha de considerar o Brasil sob Bolsonaro um país negacionista e golpista.

Milei é um farsante disruptivo de extrema direita, como aqui também são os Bolsonaros. Todos eles favorecidos pelo desencanto mundial com os valores e os benefícios do que ainda chamam de democracia.

Se não fosse assim, Milei não teria sido eleito. Nem José Antonio Kast no Chile. Nem Daniel Noboa no Equador. Tampouco Abelardo de la Espriella na Colômbia e Keiko Fujimori no Peru. A extrema direita mundial é mais articulada do que as esquerdas.

Milei veio ao Brasil para ofender Lula, Alexandre de Moraes e toda a esquerda porque se sente à vontade a mando de Trump. É o que fará em visitas a todos os países da América do Sul sob governos extremistas.

No Brasil, ele substitui a voz de Bolsonaro, porque toda a direita, e não só o bolsonarismo, não tem mais voz nenhuma. A direita brasileira não tem um líder.

Milei veio ocupar um vácuo na convenção do PL. Mas é estúpido pensar que ele, por ter sido eleito, expressa o que é o povo argentino. É um vigarista – investigado como mafioso sócio de criadores de criptomoeda – que se elegeu prometendo a mágica de salvar a Argentina.

E os valores, como ficam? É o que todos perguntam. Onde ficam as referências elementares de ética, princípios morais, liberdades e bom senso?

Por que a população que elegeu Bolsonaro e também escolheu Milei releva os ataques deles a gays, negros, idosos, diferentes e portadores de deficiência? Por que parte da população aceita que sejam negacionistas?

É outra conversa bem mais complexa. Mas dizer que o eleitor amoral de Milei transforma todos os argentinos em cúmplice dos seus crimes é mais do que um equívoco político. É uma deslealdade com a maioria e o uso dos mesmos métodos do fascismo.

Vamos ler os jornalistas de esquerda da Argentina para entender, entre outras coisas, que as bobagens ditas sobre a derrota da seleção deles para a Espanha, por exemplo, não são coisa do povo.

O movimento pretensamente nacionalista, que transforma torcedores em ativistas sem noção, defensores até da anulação do jogo final, foi acionado pela direita ‘patriótica’ nas redes sociais. É o fascismo organizado que forma hordas de alucinados gritando que a Argentina foi roubada.

Não é o povo argentino. É a extrema direita começando a fazer lá o que uma família fez no Brasil ao se apropriar da camiseta e da imagem da Seleção.

Leiam o que diz Eduardo Alibverti, no Página 12: “A estupidez pode se instalar porque é incrivelmente conveniente misturar patriotismo com futebol e imaginar conspirações globais”.

Também é conveniente para a extrema direita bolsonarista ver os brasileiros identificando o povo argentino, e não o fascismo mileinista, como racista ou xenófobo.

É raso e simplificador cair na armadilha – também xenófoba – de dirigir nosso ódio, não a Milei e ao seu governo, mas a toda a população argentina. Como se ela, e não os líderes que governam o país, fosse responsável pela degradação econômica, social e moral do país.

Quem veio ao Brasil agredir Lula e o STF foi Milei, não foi a população argentina. Assim como não fomos nós que fizemos o que Bolsonaro fez em quatro anos no poder, ao negar vacina aos que adoeciam e morriam.

Como diz Eduardo Alibverti ao falar de todas as besteiras acionadas quando das derrotas: “Confundem futebol com soberania, independentemente da comovente manifestação com bandeiras tremulando em apoio às Malvinas. E confundem patriotas com fascistas, tolos e traidores”.

Não podemos confundir o povo argentino com os fascistas no poder, mesmo que Milei tenha sido eleito por pouco mais da metade da população que vota. Ou todos nós também teremos sido bolsonaristas durante os quatro anos de Bolsonaro.

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