O pré-candidato do PSD ao governo do estado, Eduardo Paes, decidiu barrar a candidatura da deputada estadual Lucinha à reeleição. A parlamentar não deverá contar com a legenda do partido para disputar um novo mandato na Assembleia Legislativa do Rio.
A decisão, segundo interlocutores da campanha, não estaria relacionada apenas à possibilidade de a Justiça Eleitoral inviabilizar a candidatura da deputada. A avaliação no entorno de Paes é que o episódio também possui forte simbolismo político em um momento em que a segurança pública deverá ocupar posição central no debate eleitoral.
Ao afastar Lucinha da chapa proporcional, o pré-candidato pretende transmitir a mensagem de que uma eventual gestão sob seu comando terá como prioridade o enfrentamento da violência e do domínio armado de territórios no estado do Rio de Janeiro.
Consolidação de combate ao crime organizado
Nos bastidores, aliados de Eduardo Paes afirmam que o prefeito busca consolidar um discurso de rigor no combate às organizações criminosas e de recuperação da autoridade do poder público em áreas controladas por facções e milícias.
A trajetória recente da deputada estadual Lucinha (PSD) foi marcada por uma sucessão de investigações judiciais e denúncias que abalaram sua posição política e colocaram em xeque sua permanência na vida pública fluminense.
O episódio mais grave envolve as acusações de ligação com a milícia comandada por Luís Antônio da Silva Braga, o Zinho, apontado pelas autoridades como chefe da maior organização paramilitar do estado. Segundo investigações da Polícia Federal e do Ministério Público, a parlamentar teria atuado como uma espécie de braço político do grupo criminoso, interferindo em favor dos interesses da quadrilha em bairros da Zona Oeste do Rio.
As investigações apontam que Lucinha e sua então assessora, Ariane Afonso Lima, teriam fornecido informações privilegiadas sobre agendas do prefeito Eduardo Paes em regiões dominadas pela milícia, permitindo que integrantes da organização deixassem temporariamente as ruas antes da chegada das autoridades. O Ministério Público sustenta que a deputada exercia influência política em benefício do chamado “Bonde do Zinho”.
Justiça afastou a deputada em 2023 mas Assembleia autorizou retorno
Em dezembro de 2023, o Órgão Especial do Tribunal de Justiça determinou o afastamento cautelar da parlamentar. No entanto, em fevereiro de 2024, a Assembleia Legislativa do Rio derrubou a decisão judicial por ampla maioria, autorizando seu retorno ao mandato por 52 votos a 12. A Casa também instaurou um processo disciplinar no Conselho de Ética. (Alerj)
Meses depois, porém, o próprio Conselho de Ética da Alerj decidiu arquivar a representação contra a deputada. Por quatro votos a dois, os integrantes do colegiado entenderam que as provas então disponíveis não permitiam concluir, de forma inequívoca, pela participação de Lucinha nos crimes investigados.
Além da investigação sobre a milícia, Lucinha foi condenada pelo Tribunal de Justiça do Rio, em agosto de 2024, a quatro anos, cinco meses e dez dias de prisão em regime semiaberto por peculato. Segundo a decisão, a deputada teria utilizado um assessor parlamentar, remunerado com recursos públicos, para atuar como pedreiro em centros comunitários ligados ao seu grupo político. A sentença também determinou a perda do mandato e a devolução de aproximadamente R$ 174 mil aos cofres públicos. A defesa contestou as acusações.
Polícia Federal decidiu indiciar Lucinha
No âmbito das investigações sobre a milícia, a Polícia Federal concluiu pelo indiciamento da parlamentar e o Ministério Público ofereceu denúncia contra ela e sua ex-assessora. Posteriormente, o Órgão Especial do Tribunal de Justiça aceitou a acusação, transformando ambas em rés por suposta interferência política em favor da organização criminosa.
A defesa de Lucinha nega todas as acusações e sustenta que as investigações se baseiam em interpretações equivocadas e em depoimentos sem comprovação material. Enquanto os processos seguem em tramitação, a deputada continua afirmando ser vítima de perseguição política.