Navegadores solitários são surpreendentes quando retornam da solidão voluntária no meio do mar. Mas ainda acho que o caso de Tamara Klink não foi uma manifestação resultante de ingenuidade e desinformação, mas uma jogada de marketing.
A navegadora e escritora publicou no fim de semana uma retratação no Instagram após ser criticada por pedir que seus leitores parassem de comprar seu livro “Bom Dia, Inverno”.
Tamara fez um apelo para que livro circule, que é mais ou menos o que pedem desde a primeira Bíblia. Não tem novidade alguma nesse pedido pela socialização da leitura. Livros deveriam ser tão vendidos quanto os pães.
Mas se quebrou ao dizer que, como a produção do livro exigiu muita energia, o bom é que parassem de comprar. O livro conta a aventura de oito meses de Tamara, que viveu isolada em um veleiro no Ártico, entre outubro de 2023 e maio de 2024.
Tamara deve ter ficado longe da vida real por muito tempo para dizer essa bobagem, em nome do que seria, segundo ela, a defesa da natureza.
Experiências individuais de isolamento da ‘civilização’ resultam muitas vezes em atitudes egocêntricas, com lições edificantes de superação e autoajuda. Qual é o sentido disso hoje, num mundo em que não há barcos para todos que desejam fugir de um ônibus com cem pessoas dentro?
Viver no Ártico, com patrocínio, num veleiro com ar condicionado é uma barbada. Tente viver no Complexo do Alemão no meio de milícias e traficantes bolsonaristas e pregadores religiosos que se dedicam a exorcismos e extorsões.
Mas teve muita gente que aplaudiu a lacração da navegadora que tentou boicotar todos os livros, e não só o dela, por desfrutar da euforia de ver sua obra virar best-seller.
Na retração, e essa deve ser aplaudida, Tamara escreveu no Instagram:
“Daqui do mar, soube da dimensão que o vídeo dos livros tomou e sinto muito. Obrigada a todos que se dispuseram a escrever. Errei em não ver outros pontos de vista. Precisamos da leitura. Precisamos de autores. Pequenos, grandes e independentes. Sou leitora antes de ser autora e não levei em conta toda a cadeia que alimenta as editoras. Agradeço a cada um que faz a leitura ir mais longe do que a prateleira”.
Tamara reduziu o pretexto para seu recuo à questão do mercado. Ler ou não ler, comprar, guardar ou não guardar um livro são questões que estão acima da cadeia do livro e de interesses comerciais e empresariais. E é claro que são importantes.
Escrever, editar, vender, comprar e ler um livro, tudo isso é resistir, inclusive às ameaças do fascismo antileitura, anti-informação e anticonhecimento. Fazer o livro circular é a obviedade da sua fala e já é outra história. Tamara tentou ser esperta, mas vai amadurecer.