Há um eleitor independente convicto na sua família: um tio, um primo, uma sobrinha, o cunhado. Esse eleitor chega a ser apresentado por institutos de pesquisa como alguém que tem, não se sabe direito por que, uma sabedoria pragmática superior.
São vários os perfis do eleitor independente, mas na essência ele é assim por fugir da polarização. O independente aparece ao centro para poder oscilar de um lado para o outro. É um pêndulo por ter essa capacidade de decisão final, na hora certa, que os outros não teriam.
Na família, todos sabem que ele não é o sabichão e o superior, mas o enrolão. E usa essa enrolação para se apresentar como mais esperto. O eleitor independente seria o que antigamente chamavam de camaleão em cima do muro.
Mas o independente é poderoso como força coletiva. Representa um terço do eleitorado. É muita gente. E é provável que, na hora de votar, só 10% deles apareçam.
O Instituto Quaest apurou esses dados em junho: 33% dos eleitores se apresentam como lulistas (19%) ou de esquerda não lulista (14%). Também são uma fatia de 33% os eleitores que se definem como bolsonaristas (12%) ou de direita não bolsonarista (21%). O outro um terço é dos cautelosos independentes.
Leiam esta declaração de Felipe Nunes, diretor da Quaest: “Esses independentes pragmáticos são menos ideológicos. Para eles, democracia é muito importante, assim como segurança pública, corrupção e desburocratização”.
Agora, pensem o seguinte, sem chamar o primo independente convicto para perto, porque ele vai enrolar. Se esse eleitor esperto se distancia da polarização e das ideologias para não ser enrolado, como é um sujeito com dúvidas?
O eleitor independente não sabe mesmo o que Lula e Flávio são e representam? Não sabe o que Lula fez em três governos e não desconfia do que Flávio Bolsonaro pode fazer? Não sabe o que o pai dele já fez?
Não estamos tratando de detalhes sobre questões econômicas, privatizações, arcabouço fiscal, previdência, reforma tributária, programas sociais, inflação, juros, salário mínimo e outras questões importantes. Falamos de essências. E qualquer eleitor deve saber quais são as ideias e posições essenciais de um e de outro. É a diferença entre democracia e fascismo.
Um eleitor independente que se afasta de ideologias não pode alegar que esse distanciamento o hipnotiza diante de um Flávio Bolsonaro. A neutralidade não pode torná-lo incapaz de saber quem é o filho ungido pelo pai negacionista e golpista.
O eleitor independente, que andou mais na direção de Lula nas últimas pesquisas, fez esse movimento porque Flávio foi fragilizado pelo envolvimento com Daniel Vorcaro e pela denúncia de Michelle de que é machista e autoritário. Mas o eleitor independente foi surpreendido por esses dois episódios?
O eleitor independente não poderia dizer que não sabe qual é o conjunto da obra de Flávio e o que ele faz para reafirmar que o pai dele é sua inspiração. Ele até poderia estar indeciso, considerando suas trajetórias, entre Fernando Haddad e Geraldo Alckmin, ou entre Guilherme Boulos e Simone Tebet. Mas não entre Lula e Flávio.
O que seu primo independente faz é o que todos os outros eleitores com o mesmo perfil estão fazendo nesse momento em conversas com familiares e amigos. Eles dizem estar cansados de polarização, relativizam o extremismo de Flávio e informam também nas pesquisas qualitativas que ainda não dá para decidir.
Esta declaração de um eleitor de pesquisa qualitativa da Quaest oferece o resumo: “No Brasil, a gente se surpreende a cada dia e tem cada vez menos certeza do que vai decidir. A princípio eu ia votar no Flávio, mas, depois desse áudio vazado (do pedido de dinheiro para Vorcaro), a gente não tem mais em quem acreditar”.
Se não fosse o rolo de Flavinho com o banqueiro mafioso, estaria tudo bem. O voto do eleitor independente estará sempre diante de uma escolha fácil para a maioria, mas que ele, com mil pretextos, torna difícil.