A médica e pesquisadora Margareth Dalcolmo afirmou que o impacto da pandemia de Covid-19 pode ter provocado mais de 2 milhões de mortes no Brasil, cerca de três vezes o total contabilizado oficialmente. A declaração foi dada durante um debate sobre cinema e direitos humanos realizado na Estação Claro Rio, na segunda-feira (20), após a exibição do documentário “Anatomia do Caos”.
“720 mil mortes não é verdade. No Brasil, nós tivemos pelo menos três vezes o número registrado oficialmente de mortes por Covid-19”, declarou Dalcolmo. O balanço oficial reúne os óbitos cuja causa foi atribuída diretamente à doença, mas pode deixar de fora casos sem diagnóstico ou registrados sob outras causas.
A estimativa apresentada pela médica adota um alcance mais amplo. Ela inclui pessoas mortas durante a fase aguda da infecção, vítimas de complicações e sequelas posteriores e pacientes afetados pela sobrecarga dos serviços de saúde. “Seguramente nós tivemos mais de dois milhões de mortos, seja pela doença aguda naquele momento, seja pelas doenças decorrentes das consequências e das sequelas”, afirmou.
Esse tipo de avaliação se aproxima do conceito de excesso de mortalidade usado pela Organização Mundial da Saúde. O indicador compara todas as mortes registradas durante uma crise com o número esperado em condições normais. O resultado pode incluir casos de Covid não diagnosticados e óbitos indiretos provocados pela interrupção de tratamentos, pelo colapso hospitalar ou pela dificuldade de acesso à assistência.
O número de 2 milhões, no entanto, foi apresentado por Dalcolmo como uma estimativa e não como um balanço oficialmente reconhecido. A reportagem que divulgou a declaração não identificou o estudo, o período analisado ou a metodologia específica que sustentariam o cálculo. Uma pesquisa publicada na revista científica PLOS One estimou cerca de 629 mil mortes acima do esperado no Brasil entre março de 2020 e dezembro de 2021, número próximo do total de óbitos por Covid registrado naquele intervalo.
Dalcolmo afirmou ainda que o coronavírus passou a circular de forma endêmica e defendeu a futura combinação da vacina contra a Covid com a imunização anual contra a gripe. “Nós sabíamos que, para uma doença de transmissão aguda, respiratória e viral, a única arma que existe chama-se vacina”, disse.
A discussão sobre subnotificação retoma um dos principais temas da CPI da Covid, que investigou as ações e omissões do governo de Jair Bolsonaro durante a emergência sanitária. A comissão apurou atrasos na compra de vacinas, promoção de medicamentos sem eficácia e medidas adotadas pelo governo federal em desacordo com recomendações científicas.