O presidente Lula (PT) colocou Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos, no centro de seu confronto eleitoral com Flávio Bolsonaro (PL) ao desafiar o estadunidense a “monte um comitê” para o senador e pré-candidato à Presidência. A frase marcou uma mudança no tom do presidente, que passou a nomear uma autoridade de Washington como parte do embate político no Brasil.
Até então, Lula atacava a pressão dos EUA de forma mais ampla. O petista criticava o tarifaço e as sanções contra autoridades brasileiras como instrumentos da diplomacia de Donald Trump e acusava Flávio e os Bolsonaros de se alinharem a interesses estrangeiros, usando a defesa da soberania como eixo de campanha.
No discurso da segunda-feira (20), Lula deslocou o alvo. O adversário eleitoral deixou de ser apenas Flávio Bolsonaro e passou a incluir, na narrativa do presidente, uma coalizão associada a uma potência estrangeira. Ao citar Rubio nominalmente, o petista deu rosto a uma acusação que vinha formulando de maneira difusa.
A Casa Branca já havia entrado no tabuleiro político ao receber Eduardo Bolsonaro, que defendia publicamente a aplicação de tarifas ao Brasil como ferramenta de pressão, e depois Flávio Bolsonaro, apresentado como pré-candidato à Presidência. Lula passou a tratar essa aproximação como elemento de campanha contra o senador.
Casa Branca entrou no centro da disputa eleitoral
O movimento ocorre às vésperas da implementação de um novo tarifaço americano contra o Brasil. Lula tenta explorar uma fragilidade política de Flávio nesse cenário, embora a decisão dos EUA faça parte de uma ofensiva mais ampla da Casa Branca sobre diversos países.
Ao dizer “que monte um comitê”, Lula não descreveu uma interferência já consumada, mas provocou o adversário a assumir publicamente essa proximidade. A estratégia tenta fixar no debate eleitoral uma disputa entre um candidato nacional e uma potência estrangeira.
A jogada tem precedentes na região. Dias antes da eleição de 2002 na Bolívia, o embaixador estadunidense Manuel Rocha afirmou que uma vitória de Evo Morales custaria a ajuda dos EUA ao país. O efeito foi contrário ao esperado: Evo se projetou como símbolo de soberania ferida e reagiu com a frase “Tomara que ele continue falando”. ]
No Brasil, a atuação pública do embaixador Lincoln Gordon durante a ditadura militar iniciada em 1964 inspirou a provocação atribuída a Otto Lara Resende: “Chega de intermediários, Lincoln Gordon para presidente”.
Segundo a Folha, Lula escolheu mirar Rubio, e não Trump, em um cálculo político específico: ampliar o discurso soberanista sem fechar totalmente o canal com quem toma as principais decisões em Washington. O palco também ajudou o recado; o presidente falou na convenção nacional do PDT, partido marcado pelo nacionalismo trabalhista, com imagem de Leonel Brizola ao fundo.