Parte da direita política fluminense passou a resgatar o legado do ex-governador da Guanabara Carlos Lacerda (1914-1977) como referência para enfrentar problemas considerados estruturais do Estado do Rio de Janeiro, especialmente a expansão desordenada das favelas, a corrupção e a crise administrativa. Segundo informações do jornal Folha de São Paulo, o movimento reúne pré-candidatos e articuladores que, embora integrem o campo conservador, procuram se diferenciar do bolsonarismo e defendem uma agenda inspirada no chamado “lacerdismo”.
Além da retomada de propostas associadas à gestão de Lacerda, o grupo também pretende relançar a Tribuna da Imprensa, jornal fundado pelo político em 1949 e que se tornou um dos principais veículos de oposição durante a segunda metade do século XX.
O ressurgimento dessa corrente ocorre em meio ao cenário de instabilidade política vivido pelo Rio de Janeiro, marcado por investigações, prisões de agentes públicos e sucessivas mudanças no comando do governo estadual.
Combate à favelização e discurso anticorrupção
Entre os principais pontos defendidos pelos integrantes do movimento, está a adoção de políticas de “desfavelização”, conceito que aparece como prioridade no programa do partido Missão. A proposta prevê a remoção de ocupações consideradas irregulares, associada à regularização fundiária e à ampliação da propriedade privada.
O nome dado ao projeto, “A Batalha do Brasil”, faz referência direta à campanha “A Batalha do Rio de Janeiro”, lançada por Carlos Lacerda em artigos publicados no Correio da Manhã em 1948. Na época, o político defendia mudanças urbanísticas e ações voltadas à reorganização da ocupação da cidade.
O candidato a deputado federal Victor Antoun (Missão) afirma que a visão urbanística de Lacerda permanece atual para parte da direita.. Para ele, Lacerda foi um político de grandes obras de infraestrutura e de combate ao crescimento das favelas. Antoun reconhece que a metodologia dele hoje causa polêmica, mas que tinha uma visão de Rio de Janeiro que se aproxima da visão do partido Missão.”
O deputado também defende o retorno do antigo Estado da Guanabara, argumentando que o Rio perdeu protagonismo nacional após a fusão entre Guanabara e Estado do Rio, ocorrida em 1975.
Ex-integrantes do governo Castro aderem ao discurso
O resgate do lacerdismo também reúne nomes que integraram o governo de Cláudio Castro e hoje fazem oposição à antiga gestão.
O advogado Bernardo Santoro, ex-presidente do Instituto Rio Metrópole (IRM), afirma que deixou o governo por divergências em relação à condução administrativa e critica o que chama de “frouxidão moral e ética”. Neto de Enaldo Cravo Peixoto, secretário de Obras de Carlos Lacerda, Santoro adquiriu os direitos da marca Tribuna da Imprensa e planeja recolocar o jornal em circulação.
Outro nome ligado ao movimento é o advogado Victor Travancas, ex-assessor do governo estadual, que se declara admirador de Carlos Lacerda e afirma defender um conservadorismo alinhado aos princípios democráticos. Segundo Travancas, o objetivo é recuperar valores conservadores sem romper com o Estado Democrático de Direito. “Baseado no que há de mais moderno nos partidos conservadores”.
Atualmente, Travancas atua na equipe jurídica da pré-campanha de Anthony Garotinho (Republicanos) ao governo do Estado e avalia que o discurso adotado pelo ex-governador se aproxima mais das críticas ao sistema político do que do antigo trabalhismo que marcou sua trajetória.
O legado e as controvérsias de Carlos Lacerda
Figura central da política brasileira no século XX, Carlos Lacerda construiu sua carreira como jornalista, deputado e governador da Guanabara entre 1960 e 1965. Sua administração ficou marcada por grandes investimentos em infraestrutura urbana, saneamento, abastecimento de água, educação e obras viárias. Também implementou uma ampla política de remoção de favelas das regiões centrais e da Zona Sul, transferindo milhares de famílias para conjuntos habitacionais na Zona Oeste, como Cidade de Deus, Vila Kennedy e Vila Aliança — medida que permanece alvo de intenso debate entre historiadores e urbanistas.
No plano nacional, Lacerda tornou-se um dos principais opositores do presidente João Goulart e apoiou o movimento que resultou no golpe militar de 1964. Entretanto, poucos anos depois rompeu com o regime ao perceber que os militares não devolveriam o poder aos civis por meio de eleições diretas. Passou então a defender a redemocratização do país e integrou a chamada Frente Ampla, ao lado dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart, movimento posteriormente proibido pela ditadura militar. Carlos Lacerda morreu em 1977, antes da abertura política e da retomada das eleições presidenciais diretas.




