A cúpula das Forças Armadas avalia que os planos dos Estados Unidos para operações terrestres contra narcotraficantes na América Latina dificilmente alcançariam o Brasil. Militares que mantêm contato com colegas estadunidenses consideram improvável uma ação direta dos EUA em território brasileiro.
Na leitura desses integrantes das Forças Armadas, segundo o Globo, uma eventual intervenção dependeria da cooperação de instituições brasileiras, especialmente do Exército. A força mantém presença ao longo dos quase 17 mil quilômetros de fronteiras terrestres que o país divide com dez nações sul-americanas.
Os militares consideram que Washington conhece a posição do Brasil nas rotas do tráfico: o país não figura como grande produtor de drogas, mas atua como mercado consumidor e importante entreposto comercial. A extensão e a complexidade das fronteiras também dificultariam qualquer operação terrestre estrangeira.
Como comparação, eles citam os obstáculos enfrentados pelos Estados Unidos em sua fronteira de pouco mais de 3 mil quilômetros com o México. A região concentra dificuldades operacionais históricas no combate a organizações ligadas ao narcotráfico.
Declarações do Pentágono e nova estratégia para a América Latina
Em visita ao Panamá, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, afirmou que o país pretende atacar narcotraficantes “em terra” na América Latina. Ele comparou a possibilidade às ações que os EUA já promovem em águas internacionais contra embarcações suspeitas de transportar drogas.
Em dezembro de 2025, a Casa Branca divulgou uma nova Estratégia de Segurança Nacional que coloca a América Latina como prioridade estratégica. O documento atualiza a Doutrina Monroe e descreve a região como um “front central” da disputa geopolítica, prevendo o reposicionamento de recursos militares, diplomáticos e de inteligência.
Na última terça-feira (11), o Departamento de Estado publicou um vídeo afirmando que o domínioestadunidense sobre o continente “nunca mais será questionado”. A peça recupera a Doutrina Monroe, formulada em 1823, e cita a operação militar que sequestrou o ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro, em 3 de janeiro, como exemplo recente de sua aplicação.
O vídeo classificou a ação contra Maduro como um “forte sinal a todo o hemisfério”. Ao recontar a trajetória da doutrina, porém, a publicação não mencionou intervenções dos Estados Unidos na América Latina que contribuíram para a instalação de regimes ditatoriais no século 20.
Força-tarefa dos EUA exclui o Brasil
No dia 3, o Pentágono anunciou uma força-tarefa liderada pelo Comando Sul dos Estados Unidos para combater cartéis na América Latina. A coalizão reúne 18 países, entre eles Argentina, Bolívia, Chile e Colômbia, mas não inclui o Brasil.
O general Francis Donovan, comandante do Comando Sul, afirmou nas redes sociais que os EUA levarão “a luta ao inimigo” e exercerão “total pressão sistêmica” sobre redes criminosas que ameaçam o país e seus parceiros. Hegseth também pediu que os integrantes da coalizão deixem o Tribunal Penal Internacional, instituição que Washington não reconhece.
O Departamento de Estado dos EUA designou o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como entidades terroristas internacionais em maio. A medida amplia as preocupações sobre possíveis iniciativas estadunidenses sob o argumento de combate ao terrorismo e ao narcotráfico.
O deputado republicano Carlos Gimenez, aliado de Donald Trump, publicou uma fotomontagem de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) preso da mesma forma que Nicolás Maduro, acompanhada da frase “o que o espera”. O ex-deputado Eduardo Bolsonaro e o influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo republicaram a imagem; horas depois, Gimenez escreveu que “o Brasil merece mais: liberdade, democracia e um futuro longe da influência ‘castrocomunista’”.
No início do mês, os Clubes Naval, Militar e de Aeronáutica divulgaram manifesto conjunto sobre riscos ligados à política externa, à crise institucional e à situação econômica. O ministro da Defesa, José Múcio, disse recentemente que, diante de uma eventual invasão dos Estados Unidos, a melhor estratégia seria “abrir os portões”, por avaliar que o país não teria recursos para responder aos danos de um conflito.




