O intenso tráfego de helicópteros no Rio entrou no radar do Ministério Público Federal (MPF) diante de números que mostram o crescimento da atividade e problemas no cumprimento das regras de voo. Levantamento da Aeronáutica apontou que 28% das aeronaves analisadas no Aeroporto de Jacarepaguá passaram abaixo da altitude mínima de 500 pés, equivalente a cerca de 150 metros.
Os dados abrangem o período entre outubro de 2025 e abril deste ano. Entre os casos de descumprimento identificados, 65% envolviam helicópteros.
O cenário chama ainda mais atenção diante do crescimento da frota. Segundo dados da Associação Brasileira de Aviação Geral (ABAG), divulgados pelo RJ2/g1, o estado passou de 247 helicópteros em 2023 para 319 em 2026 — aumento de 29% em apenas três anos.
Rio tem 68 voos panorâmicos por dia
Parte importante da preocupação envolve o turismo aéreo sobre alguns dos principais cartões-postais do Rio.
Segundo levantamento acompanhado pelo MPF, foram realizados aproximadamente 25 mil voos panorâmicos no ano passado. Isso representa cerca de 2 mil operações mensais e uma média de 68 por dia.
A apuração sobre a atividade começou após o Ministério Público receber, em 2023, reclamações de associações de moradores, inicialmente do Joá e posteriormente de outras regiões, principalmente nos arredores do Cristo Redentor e da Urca.
“Nós recebemos uma representação de Associações de Moradores do Joá em 2023, reclamando desses voos panorâmicos de helicóptero”, afirmou ao RJ2 o procurador da República Sérgio Suiama.
Entre 2024 e 2025, o MPF firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com 14 empresas que exploravam voos panorâmicos. O acordo estabeleceu parâmetros relacionados a altitude e ruído.
Segundo o procurador, porém, a iniciativa não foi suficiente para solucionar os problemas provocados pelo crescimento da atividade.
“É a hora de nós realmente buscarmos uma solução mais eficaz no que diz respeito a esse controle aéreo de helicópteros de voos panorâmicos”, afirmou.
Acidentes deixaram 13 mortos
A discussão sobre as condições de operação ganhou ainda mais peso depois da sequência de acidentes registrada neste ano.
Segundo o levantamento apresentado pelo RJ2, quatro acidentes envolvendo helicópteros deixaram 13 mortos no estado somente em 2026.
Em junho, dois helicópteros colidiram no ar e caíram no Recreio dos Bandeirantes. Seis pessoas morreram.
No último sábado, outro helicóptero, pertencente à empresa VRP e que havia decolado do Aeroporto de Jacarepaguá para um voo em direção ao Cristo Redentor, caiu na região do Parque Nacional da Tijuca. O piloto e três turistas colombianas morreram.
As investigações sobre os quatro acidentes permanecem em andamento no Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa).
Não há, até o momento, conclusão apresentada pelas autoridades que permita estabelecer uma relação causal entre as irregularidades de altitude identificadas no levantamento e esses acidentes.
MPF vê jogo de empurra
Diante do crescimento do setor e dos problemas identificados, o MPF avalia agora levar a discussão ao Judiciário.
Suiama afirmou que a tentativa de autorregulação por meio do acordo firmado com as empresas não produziu os resultados esperados.
“Uma vez que já houve a tentativa de autorregulação e esta tentativa não se revelou eficaz, nós temos a saída, eu acho, de buscar a via judicial”, declarou.
Segundo o procurador, uma eventual ação poderá buscar a participação coordenada de órgãos como Anac, Aeronáutica, Prefeitura do Rio e Inea.
“O que nós estamos percebendo hoje, que nós percebemos já ao longo desse inquérito, é um jogo de empurra”, afirmou Suiama.
Após o acidente do último sábado, a Prefeitura do Rio também pediu à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) uma avaliação das normas aplicadas aos voos panorâmicos, incluindo a possibilidade de delimitação de áreas específicas para esse tipo de operação.